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Investir já causa ansiedade e ganhou cara de game; quais os riscos disso?

Unsplash/Austin Dsitel
Imagem: Unsplash/Austin Dsitel

Luiza Pollo

Colaboração para o TAB

22/09/2020 04h01

Você abre o Twitter, dá de cara com a Nath Finanças. Vai no YouTube, tem o canal Me Poupe, o Favelado Investidor. Corre para o Instagram, e o MonkeyStocks está cheio de memes que você não consegue entender. Pode parecer que está todo mundo aprendendo a cuidar do dinheiro e, quando possível, diversificar os investimentos.

Com o desemprego em alta, a taxa básica de juros (Selic) em um patamar baixo histórico, além da facilidade de encontrar informações sobre o mercado financeiro e a praticidade trazida por tecnologias como aplicativos de corretoras, é natural que as pessoas procurem opções com retornos mais expressivos — e a Bolsa pode parecer a mais atrativa entre elas.

"Os novos investidores, muitas vezes, são movidos pelo que a gente chama na psicologia econômica e na economia comportamental de 'aversão à perda', que é um motivador extremamente poderoso para o ser humano", explica Vera Rita de Mello Ferreira, uma das pioneiras no estudo da psicologia econômica no Brasil, além de autora, consultora e professora no Vértice Psi. "Então, vem essa manada que não quer perder a oportunidade de tentar ganhar dinheiro."

E que manada. A B3, bolsa brasileira, ganhou 900 mil novos CPFs entre março e julho deste ano. Para comparação: foi só em julho de 2019 que a Bolsa chegou a 1 milhão de investidores pessoa física. Antes disso, ela passou quase uma década estacionada na casa dos 500 mil. Portanto, o FoMO é real. O famoso fear of missing out (medo de ficar de fora) também veio incomodar nosso bolso. Se, por um lado, é positivo que a população se informe e conheça melhor novas opções de investimento — e possivelmente ganhe mais dinheiro com isso —, por outro, decisões apressadas e mal orientadas não costumam combinar com ganhos na Bolsa, lembra Ferreira.

"Geralmente, dizemos que o investidor iniciante é mais intuitivo, trabalha muito em cima do que ele percebe, e não necessariamente busca informações detalhadas. Está se baseando numa experiência prévia. Alguma coisa que ele ouviu, viu, mas que não de fato processou", diz Ana Maria Roux, professora do Programa de Pós-Graduação em Controladoria e Finanças Empresariais da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-doutora pelo Laboratory of Neuromodulation de Harvard.

E todos estamos sujeitos a fortes impulsos quando se trata de dinheiro, não apenas quem está começando agora. Além dos aspectos comportamentais, que renderam ao psicólogo Daniel Kahneman o prêmio Nobel de Economia em 2002, há pesquisas que apontam fatores biológicos como determinantes nas nossas decisões financeiras. Mais recentemente, o neurocientista John Coates vem identificando como a testosterona e o cortisol influenciam os investimentos.

Gamificação

Retorno baixo na renda fixa, informação (e desinformação) de sobra na internet e redes sociais, FoMO. A mistura perfeita para atrair mais investidores está pronta, e vem ganhando uma pitada final: a facilidade para investir em renda variável.

Mas quais os limites éticos disso? A startup Robinhood, nos Estados Unidos, está envolvida em diversas polêmicas por facilitar — e inclusive gamificar — o processo de investimento em bolsa. Assim como vimos no Brasil, ela também registrou grande aumento no número de investidores: foram três milhões de contas abertas no primeiro trimestre de 2020.

Além de ter sido pioneiro ao zerar os custos para operar ações, o aplicativo criado pela empresa é bastante intuitivo, colorido, e inclusive classifica o usuário em diferentes 'fases', dependendo do tipo de investimento que ele faz.

Ao concluir seu primeiro trade (compra ou venda de ações na bolsa), confetes coloridos explodem na tela. "Se, por um lado, isso é algo a se celebrar, eu acho que o confete denota um pouco mais de celebração do que deveria", afirmou ao Wall Street Journal Tara Falcone, planejadora financeira e fundadora da Reisup, empresa de educação financeira focada em millennials.

Isso porque, ao transformar investimentos em um jogo, deixamos nossos vieses comportamentais falarem ainda mais alto. "Nós somos impulsivos, nós somos movidos pelas emoções", lembra Ferreira. "A gente tem que fazer um esforço danado para não deixar que os impulsos fiquem reinando absolutamente na nossa mente. E aí qualquer ferramenta que facilite o reinado dos impulsos vai promover essa maneira de operar."

Sob a (falsa) promessa de ganhos fáceis e rápidos — muitas vezes anunciados em vídeos patrocinados nas redes sociais —, investidores que sabem pouco do mercado tomam decisões impulsivas e prejudiciais para seus bolsos. Quando a empresa de aluguel de carros Hertz declarou falência no início do ano e os preços das ações despencaram, usuários do Robinhood investiram valores recordes, enquanto os mais experientes fugiram dos papéis praticamente na mesma proporção, levantou o Wall Street Journal.

As consequências podem ser ainda mais graves do que perder algumas centenas de dólares em um negócio mal pensado. Em junho, um jovem de 20 anos cometeu suicídio após entender que estava com um saldo negativo de US$ 730.165 no app. Segundo a Forbes, que reportou o ocorrido, o valor não necessariamente refletia uma dívida, mas apenas um saldo temporário até que as ações que ele comprou entrassem efetivamente na carteira.

Vale lembrar que o suicício dificilmente é explicado por apenas um fator, mas a Robinhood lamentou publicamente o fato e afirmou ter entrado em contato com a família do garoto imediatamente para oferecer condolências.

"Quando falamos dos aplicativos, falamos da arquitetura da escolha. Você está moldando, apresentando para o usuário algumas opções para ele decidir, ou mostrando algumas informações que vão ajudá-lo a decidir. É o que a gente chama de nudge — você está dando um empurrãozinho para ele", afirma Roux, que cita também casos positivos. Há apps que ajudam o usuário a resistir a tentações e focar em seus objetivos, lembra ela. Por exemplo: se você guardou cinco mil reais e declarou no aplicativo que pretende fazer uma viagem para o México no ano que vem, o sistema pode te mostrar uma foto de Cancún caso você resolva resgatar aquele dinheiro antecipadamente.

Conheça seus vieses

É claro que não dá para colocar nos apps e na tecnologia toda a "culpa" pela corrida à Bolsa com o objetivo de ganhos fáceis. Aliás, democratizar os investimentos é algo defendido pelas especialistas, desde que acompanhado de educação financeira.

Ferreira contribuiu na elaboração de cartilhas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) com esse propósito. A série CVM Comportamental conta com três volumes (Vieses do Investidor, do Poupador e do Consumidor) para informar gratuitamente a população sobre as principais predisposições das pessoas na hora de lidar com dinheiro -- e como elas podem se tornar armadilhas. "O primeiro passo para evitá-las é reconhecer que estamos sujeitos a elas ou, ainda, se dar conta de quando estamos incorrendo nelas", diz o material. Conheça algumas das principais:

Ancoragem
"Por incrível que pareça, se perto do momento de investir, uma pessoa é previamente exposta a palavras como "promoção", "pechincha", "barato", "vantagem" e outras similares, tem mais chance de avaliar um investimento como vantajoso do que um investidor exposto a palavras como "caro", "exorbitante", "puxado", "alto", etc."

Aversão a Perda
"A Aversão a Perda (loss aversion, em Inglês) é um viés que nos faz atribuir maior importância às perdas do que aos ganhos, nos induzindo frequentemente a correr mais riscos no intuito de tentar reparar eventuais prejuízos. Alguns estudos sugerem que isso se dá porque, do ponto de vista psicológico, a dor da perda é sentida com muito mais intensidade do que o prazer com o ganho."

Falácia do Jogador
"Após uma série de valorizações seguidas de um mesmo papel, algumas pessoas começam a sentir uma ansiedade que as impele a vender suas ações, por terem a sensação de que entrará em cena algum mecanismo de correção capaz de fazê-las cair em breve, sem que haja uma explicação racional para tal queda. Por outro lado, há investidores que decidem manter em carteira ativos cujo valor vem caindo seguidamente, sem se preocupar em compreender o motivo da desvalorização."

São, ao todo, sete vieses apresentados na cartilha, com dicas de como reconhecê-los na hora de investir e sugestões de como escapar deles. Roux lembra que recebemos muita informação à qual nem mesmo prestamos atenção, mas que afetam nosso inconsciente e nossas escolhas. Quando se trata de dinheiro, portanto, as decisões precisam ser mais racionais do que intuitivas. E, o mais importante, conscientes e livres — sem que sejam impostas por caminhos pré-definidos pelas ferramentas. "O grande debate é a ética que está por trás dos apps. Na hora que eu vou apertar o botão, eu tenho que ter a opção da escolha", destaca ela.