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Papel de trouxa? Fãs reclamam e editoras reagem sobre impressão de livros

Gramaturas mais baixas e tom naturalmente amarelado de materiais usados atualmente têm dado o que falar. Na foto, Bárbara Ingred Guth, fã da saga "Crepúsculo", mostra as edições - Arquivo pessoal
Gramaturas mais baixas e tom naturalmente amarelado de materiais usados atualmente têm dado o que falar. Na foto, Bárbara Ingred Guth, fã da saga "Crepúsculo", mostra as edições Imagem: Arquivo pessoal

Victor Bianchin

Colaboração para o TAB

23/09/2020 04h00

Quem acompanha as notícias sobre o mercado editorial sabe que o maior desafio do setor, atualmente, é contornar os problemas causados pela Covid-19. Em abril deste ano, segundo pesquisa da Nielsen, o faturamento com venda de livros caiu mais de 45% em relação ao mesmo período de 2019. O setor, agora, esboça uma reação, mas um obstáculo para isso pode ser inesperado: as exigências cada vez maiores dos fãs.

Nas redes sociais, as reclamações sobre a qualidade do papel de impressão dos livros — fator que costumava passar despercebido quando se falava de lançamentos — tem engajado muita gente. O assunto já era velho conhecido de editoras que publicam quadrinhos, pois o hábito de empresas como Globo e Abril de lançar esses títulos em papel jornal acabou marcando a discussão sobre qualidade editorial desde, pelo menos, os anos 1990. Agora, as editoras de livros também entraram na berlinda.

Em maio, aproveitando a chegada do novo livro de Stephenie Meyer, "O sol da meia-noite" — que teve lançamento simultâneo no Brasil e nos EUA dia 4 de agosto —, a editora Intrínseca anunciou um box com os quatro títulos originais da saga "Crepúsculo".

A caixa foi lançada em junho — e a expectativa dos fãs logo virou surpresa: as edições novas da saga clássica foram reimpressas em papel diferente. Os volumes originais haviam saído em papel Pólen Soft 80 g/m² (Crepúsculo), Soft Cream 60 g/m² (Lua Nova) e Chamois Fine Dunes 75 g/m² (Eclipse e Amanhecer).

Já os novos livros foram impressos no papel Ivory Slim, que tem gramatura mais baixa (58 g/m²) e é do tipo offwhite (coloração levemente amarelada). Isso criou, em muitos fãs, a impressão de que os novos livros são mais finos e mais "moles" do que os volumes brasileiros originais.

Na Amazon, é possível ler reviews como este: "Ele é mole, qualidade inferior das edições antigas, papel ainda amarelinho; mas fino", enquanto, no Twitter, houve declarações como: "Intrínseca, o que custa manter "Crepúsculo" com a mesma qualidade que sempre teve? Se não quer lançar uma edição caprichada como fez com "Coraline" OK, mas também não precisa regredir com a qualidade que já tinha, né? Vocês vão na contramão".

"O que pegou nessa questão da diferença de papel foi com os fãs mais antigos, que conheceram as primeiras edições, que sabiam que tinham um papel mais encorpado e que, querendo ou não, promovia uma leitura mais confortável", afirma a fã da saga e estagiária de community manager Bárbara Ingred Guth. Ela decidiu não comprar o box por já ter os volumes antigos e por causa das mudanças de tamanho e de gramatura do papel. "Não vai valer a pena", concluiu. Guth ficou só com a edição física de "O sol da meia-noite".

A polêmica foi tanta que a editora resolveu ir ao Twitter e ao Instagram postar explicações e um pedido de desculpas.


Editora se defende

A Intrínseca justifica a questão do papel como uma decisão técnica e mercadológica. "A tecnologia do papel Ivory Slim torna o livro mais leve e mantém a qualidade do produto, ou seja, os exemplares ocupam menos caixas e a distribuição em um país das dimensões do Brasil se torna menos custosa, de modo a não impactar tanto o preço final não só do livro, mas também do frete das lojas", afirma Heloiza Daou, diretora de marketing da editora.

"O novo livro da saga 'Crepúsculo' era um lançamento muito aguardado, então precisávamos de um papel que atendesse a essas diversas demandas e ainda viabilizasse o lançamento simultâneo, em que o tempo de edição, impressão e distribuição se torna mínimo", explica ela ao TAB, lembrando que o preço é um fator importante a se levar em conta no momento em que se discute a taxação dos livros no Brasil.

Daou também afirma que a decisão de publicar a justificativa da Intrínseca nas redes foi tomada com naturalidade. "Quando a questão do papel surgiu, a equipe se reuniu para elaborar a resposta, porque é importante ter as expertises dos diversos departamentos para dar conta das dúvidas e manter esse diálogo ativo. O post que fizemos sobre o papel é uma extensão natural do nosso relacionamento com os leitores", diz. A diretora considera a resposta aos posts como "muito positiva" e afirma que eles alcançaram mais de 120 mil pessoas.

Ainda segundo Daou, a Intrínseca "ouve todas as questões" que os leitores e fãs discutem e apontam nas redes sociais. "Os leitores, sem dúvida, influenciam algumas ações, e é uma interferência bem-vinda. Sempre aderimos às sugestões quando isso agrega qualidade ao produto", afirma ela.

Mais um box, mais uma suspeita

A reação dos fãs não passou despercebida na comunidade editorial. No começo de setembro, a Rocco anunciou seu novo box reunindo a saga "Jogos Vorazes" e fez questão de deixar claro no anúncio: "O conjunto traz caixa rígida com os primeiros três livros da série em capa dura, com acabamento soft touch e papel offwhite (o amarelinho)!!!".

Bruno Zolotar, diretor de marketing da Rocco, afirma que a editora acompanhou a discussão em torno do papel do relançamento de "Crepúsculo", mas que o box de "Jogos Vorazes" não foi influenciado. Segundo ele, o papel e a gramatura dos lançamentos são decididos de acordo com o público-alvo.

"Por exemplo, para um livro infantil colorido, o papel será do tipo revestido branco, o couché, de alta gramatura, para que as cores fiquem bem impressas e mais vivas. Assim, o papel ganha maior durabilidade", explica Zolotar. "No caso dos livros com 100% texto, usamos o tipo offwhite, ao qual o público se refere como 'amarelo' ou 'amarelinho', por permitir mais conforto à leitura. Porém, isso não é uma regra", diz.

O diretor de marketing afirma, ainda, que a Rocco utiliza as redes sociais para saber o que os leitores querem. "Nos impressiona muito o interesse dos leitores pelo processo gráfico. Nos lançamentos das edições de 20 anos de 'Harry Potter' e de 'A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes', os posts com detalhes da impressão foram dos que mais tiveram engajamento", conta.

Sinal amarelo para os mangás

Em dezembro do ano passado, uma polêmica parecida atingiu a divisão de quadrinhos e mangás da editora Panini quando a empresa anunciou na CCXP (Comic Con Experience) o lançamento do aguardado mangá "Demon Slayer" em papel offwhite. Revoltado com a decisão, um youtuber com mais de 1 milhão de seguidores publicou um vídeo em que classificava o papel offwhite como "horroroso" pelo tom amarelado e afirmava que "tem cara de velho esse negócio, amarelos é como ficavam os meus mangás velhos, os meus mangás em papel jornal, aquele papel vagabundo. Agora já vem assim".

O vídeo teve ampla repercussão, fazendo com que fãs se pronunciassem nas redes sociais da editora pedindo a troca de papel. Por outro lado, vários profissionais do setor editorial publicaram os próprios vídeos rebatendo os argumentos do youtuber e defendo a editora.

A Panini, na época, apenas se pronunciou dizendo que não iria trocar o papel, que o offwhite já estava previsto no contrato assinado e que ele é "equivalente em tom e espessura ao papel miolo utilizado na edição japonesa do mangá".

"Nós entendemos que cada leitor tem suas preferências acerca dos acabamentos dos produtos, portanto não houve surpresa quanto a essa reação ao anúncio de papel", afirma Virgínia Lima, coordenadora de marketing da Panini Brasil. Ela esclarece que o tipo de papel é decidido de acordo com diversos fatores, incluindo popularidade do título, expectativa de público e se o mangá ainda está em publicação no Japão ou se já foi finalizado.

Diferentemente dos quadrinhos americanos, os mangás geralmente se encerram após alguns anos, concluindo a história. Alguns títulos, no entanto, se alongam, como "One Piece"; outros entram em hiatos prolongados, como é o caso de "Berserk", "Vagabond" e "Hunter x Hunter" — os três publicados no Brasil e paralisados para esperar os autores. Com essa imprevisibilidade sobre quando o mangá irá se encerrar, e levando em conta o quanto o dólar pode flutuar no período, escolher um papel muito caro para a versão brasileira pode ser mau negócio.

Lima afirma que esse tipo de repercussão entre os fãs não é malvista na empresa. "Ficamos atentos aos comentários dos fãs e levamos em consideração, sim", diz ela. "É importante recebermos o feedback do público e analisamos caso a caso, tomando as devidas providências quando necessário. Sempre consideramos toda informação que nos chega", afirma.

É mais do que escolher papel

A designer gráfica Uva Costriuba, que trabalha no mercado editorial, afirma que a decisão sobre o papel utilizado num projeto vai muito além da questão comercial. "Ao ler um livro impresso, temos sensações visuais, táteis e olfativas importantes", diz ela. "Com a experiência visual, precisamos no mínimo de contraste razoável para texto, pouco ofuscamento para não cansar os olhos, legibilidade e leiturabilidade", explica ao TAB. "Para a experiência tátil, é preciso resistência, texturas de papel e acabamentos que contribuam com o contato inicial e com o envolvimento da pessoa com a narrativa. E a experiência olfativa precisa de cuidados com os gases vindos das colas e tintas envolvidas na produção, porque podem causar reações alérgicas."

Segundo sua análise, o caso da caixa de "Crepúsculo" ficou difícil de analisar objetivamente porque os fãs se viram como consumidores lesados. "Acho que a qualidade de um papel depende do seu uso", defende Uva. "Para histórias em quadrinhos, por exemplo, é imperativo escolher papéis de gramatura maior, para que os desenhos não sejam marcados pelo verso da folha, a menos que essa seja a intenção. Livros podem usar papéis diversos de gramaturas que costumam ficar entre 70 e 300 g/m²", conclui.