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Cursos de escrita criativa bombam nas redes sociais, mas estilo se aprende?

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Imagem: Unsplash

Beatriz Prieto

Colaboração para o TAB, de Paris

20/09/2020 04h01

A escrita é a nova vedete dos cursos. Tem até Margaret Atwood, autora da saga distópica "O Conto da Aia", disposta a ensinar escrita criativa na plataforma de cursos Masterclass. Uma das moedas de troca mais poderosas atualmente é justamente o texto.

A produção e o marketing de conteúdo pautam o posicionamento das marcas modernas, que tentam fidelizar e conquistar o público criando, para isso, uma narrativa. Escritórios são povoados de fantasmas de storytelling, invocados todos os dias nas reuniões. Mas em que sentido esses cursos, que prometem melhorar nosso trato com a escrita, funcionam?

"Tendo a acreditar mais nos cursos de escrita criativa que nos de storytelling. Os primeiros costumam sair de abordagens de quem tem maior contato com estudos de linguagem. Os segundos costumam apostar em fórmulas, em manuais de 'monomito'", opina Rodrigo Maceira, doutorando em estética das mídias e professor da ESPM-SP.

O monomito a que ele se refere é o conceito de jornada presente nos mitos, de acordo com o antropólogo americano Joseph Campbell, também chamado de "jornada do herói". Esse formato de narrativa abarca estágios pré-definidos em uma história, pelos quais o personagem deve passar, tais como "aventura", "provação" ou "recompensa". Então, a onda agora é transformar cada marca, loja, personalidade ou produto em história de superação pessoal.

O problema está em se fixar em um modelo único de escrita e narrativa, em que somente um caminho traz sentido. "A narrativa do storytelling é empobrecedora no sentido de que reforça o padrão, a redundância, e desencorajam a diferença. E o estilo está na diferença", reforça Maceira. Tudo vai depender, claro, do tipo de curso, da abordagem e referências transmitidas, mas o fato é que o estilo, ele, não é produzido em massa.

Marcas da palavra

A palavra escrita costura nossas experiências, todos os dias. Em que medida este texto do TAB reflete um estilo pessoal? É preciso nascer com este dom para ligar palavras, ou podemos aprender a costurá-las à nossa maneira?

Quando pensamos em um escritor favorito, lembramos de traços estilísticos, de detalhes capazes de identificá-lo mesmo se um desastre borrar seu nome do papel. Parece que há um toque de singularidade especial. Potências como Machado de Assis, Guimarães Rosa e Clarice Lispector são facilmente reconhecíveis em seus textos.

"Machado contamina tudo o que escreve com o germe da ironia. Guimarães é o grande demiurgo no nível do vocábulo, transitando entre o real e o imaginário ao investigar a fundo o poder da palavra. Já o estilo de Clarice surge do trato tão especial que ela tem com a sintaxe do português, da qual extrai frases de introspecção psíquica e metafísica muito raras entre nós", conta ao TAB o doutor em Literatura Brasileira pela USP, Welington Andrade, professor de língua portuguesa na Faculdade Cásper Líbero.

Essa pessoalidade seduz e leva à dúvida se qualquer um tem o poder encantar as próprias palavras. "O estilo vai acontecer e ser mais claramente identificável à medida que quem escreve topa correr o risco de ser desafiado por estilos diferentes. É nesse confronto com o estilo do outro que tomamos maior consciência do nosso próprio estilo", diz Maceira.

Onde buscar inspiração

Estabelecer contato com vários gêneros estilísticos é o que faz o clássico livro do escritor francês Raymond Queneau, "Exercices de style" ("Exercícios de estilo", em e-book). Ele consegue contar a mesmíssima história de 99 jeitos diferentes. A narrativa acontece em um ônibus parisiense e traz a discussão entre dois passageiros: um deles, incomodado, se sente espremido pelo empurra-empurra em horário de pico.

Publicado em 1948, o livro do boêmio Queneau joga com as palavras. O autor narra um micro acontecimento em 99 variações, seja em forma de haikai, se servindo de onomatopeias, de metáforas ou de recursos sensoriais como tato e olfato. Cada capítulo é uma experimentação e leva o nome do recurso estilístico usado para reinventar a história.

Queneau foi dos fundadores do grupo literário Oulipo ("Ouvroir de Littérature Potentielle", algo como Oficina de Literatura Potencial), que tinha Georges Perec e Italo Calvino entre os membros. Experimentais e inconformados com a língua estática, começam a brincar com ela por meio de jogos e colagens, trazendo o surrealismo para a literatura.

Um destes jogos consistia em delimitar certas restrições para a escrita. Perec, por exemplo, publicou sua obra "La Disparition" ("O Sumiço", disponível no Brasil) escrita inteiramente sem a letra "e". Além de conseguir excluir a afamada vogal de sua narrativa, ele fez do desaparecimento da letra o tema de seu livro. Os literatos do Oulipo nos mostram que jogar com as palavras e ingerir diferentes estilos, sem se fixar em nenhum, pode ser bem produtivo. E se incluir alguma restrição criativa, fica ainda melhor.

A própria técnica do cut-up, muito usada pela literatura beatnik dos anos 1950 e 1960, também exercita o improviso. Ela consiste em uma colagem de palavras ou trechos de obras que, recortadas e retiradas do seu contexto original, são recicladas para formarem algo novo. Todo esse movimento de investigação, feito no passado e que reverbera ainda hoje, desenvolve estilo.

Escrita lapidada na vida

"Estilo é forjado no exercício da própria vida. Viver intensamente experiências múltiplas nos ajuda a olhar as coisas de um modo diferente e, por extensão, a empregar a linguagem de modo inusual. Aí, concordo com [Leon] Tolstoi, para quem o estilo corresponde a uma 'particular concepção da vida'", diz o professor Welington Andrade. O fato de percorrermos caminhos diferentes dos usuais, de falarmos com pessoas fora de nossa bolha e investirmos em experiências incomuns causa uma ressonância em nosso modo de escrever.

Essa mesma experiência que forja a escrita também pode estar fora dos livros, trazida pela música. "O estilo do rap feito no Brasil tem uma força de comunicação muito grande, por aliar expressões do cotidiano, a chamada língua veicular, a imagens críticas que surpreendem pela imprevisibilidade do arranjo e a contundência do sentido, como esse trecho da letra de "Duas de cinco", do Criolo: "Calma, filha/ Que esse doce não é sal de fruta/ Azedar é a meta/ Tá bom ou quer mais açúcar?", ressalta Andrade. A letra da música é texto, e se contamina com a vivência de quem a escreve.

Como entrega Queneau ao parafrasear o provérbio francês "forjando se faz o forjeiro", é "escrevendo que se vira escrevedor". Assim, a escrita e seu estilo acontecem na prática exaustiva e na fuga do ordinário, na curiosidade pelo diferente. Aquela gaveta que você nunca teve vontade de abrir pode ser um bom começo.