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‘Brasil precisa de sistema político resiliente’, diz ex-consultor de Obama

Parag Khanna no Palacio Congresos Valencia (Espanha) - Roger Castellón Amat
Parag Khanna no Palacio Congresos Valencia (Espanha) Imagem: Roger Castellón Amat

Mônica Manir

Colaboração para o TAB

14/10/2020 04h00

Resiliência não é palavra que esteja na boca do povo. Mas ela corre solta entre aqueles que estudam situações adversas e evocam seu significado mais básico — ou seja, como o povo e seus governantes se recobram de reveses, crises agudas, traumas.

Para a maioria, a Covid-19 é a situação mais adversa do momento. Para o norte-americano de origem indiana Parag Khanna, um dos estrategistas mais renomados do mundo, não só. Ele também aponta as calamidades ambientais, contra as quais prega o uso ostensivo de inovações tecnológicas. Propõe, por exemplo, fertilizar o oceano com sulfato de ferro para estimular o crescimento de algas. Elas capturariam o gás carbônico do fundo do mar, combatendo assim o aquecimento global. Diante de cúpulas climáticas sem consenso, sua fórmula é resiliência de sobra e geoengenharia de ponta.

Autor da trilogia best-seller sobre o futuro da ordem mundial — "O Segundo Mundo" (2008), "Como Governar o Mundo" (2011) e "Connectography" (Conectografia) —, Khanna foi um dos consultores de política externa da campanha de Barack Obama. Recebeu homenagem como Jovem Líder Global do Fórum Econômico e ganhou bolsas de renomadas fundações.

Hoje, aos 43 anos, integra a Royal Geographical Society, atua no Conselho de Curadores da New Cities Foundation, entre outros, e é sócio-gerente de uma consultoria que assessora clientes ávidos por navegar bem num oceano de oportunidades e riscos.

Há uma empresa brasileira grande nessa carteira de clientes, como você verá na entrevista a seguir. Khanna já esteve no Brasil cinco, seis vezes. Não sabe precisar. A última foi em novembro de 2019. Conhece os trâmites da nossa geopolítica, já criticou a falta de ambição do país e atualmente, focado na resiliência do sistema global, diz que o Brasil continua a dever.

Tem um novo livro já com capa, "Move: Humanity's New Geography", cuja divulgação traz perguntas num crescente. Onde você vai morar em 2030? Onde seus filhos fincarão raiz em 2040? Como será o mapa da humanidade em 2050? O que pode acontecer quando bilhões de pessoas estiverem em movimento?

O planeta nunca esteve tão estático, e Khanna já anuncia o movimento de bilhões. Um contrassenso sobre o qual faz suspense. Diz que teremos de esperar o lançamento do livro, previsto para meados de 2021. Mas já deixa escapar algumas pílulas.

Parag Khanna palestrando no TED 2016 - Bret Hartman / TED - Bret Hartman / TED
Parag Khanna palestrando no TED 2016
Imagem: Bret Hartman / TED

TAB: O que caracteriza um sistema global resiliente?

Parag Khanna: Podemos ter debates ideológicos sobre resiliência, mas a verdade é que, se queremos uma fórmula, um sistema resiliente implica uma capacidade de produção local muito forte, combinada a um alto grau de conectividade, para garantir bens e serviços. Dessa forma, se houver uma interrupção nas suas fontes de alimento ou de energia, seja uma interrupção doméstica ou externa, você poderá obtê-las em outros ambientes com os quais estiver conectado.

TAB: A pandemia vem tornando as nações mais ou menos intolerantes?

PK: Há alguns pontos aqui. Em primeiro lugar, a pandemia nos fez perceber como somos dependentes uns dos outros. Veja quanta dependência existe nas importações globais de alimentos, por exemplo. Quando a oferta é interrompida, algumas populações sentem o problema bem de perto. A África e outros lugares ainda sofrem com isso. Em termos de tolerância e intolerância, se por um lado o populismo está crescendo e as fronteiras ficando aparentemente mais intransponíveis, por outro, também vemos o quão expostos ficamos em termos de escassez de mão de obra e como se reduziu a remessa de capital. Fazendeiros na Europa, por exemplo, perceberam isso. Mas não acho que o populismo, o protecionismo, o racismo e a xenofobia sejam necessariamente globais. Eles são bastante locais. Conheci países ainda muito abertos aos imigrantes. O Canadá, por exemplo, tem uma política de imigração generosa, então não acho que possamos ser genéricos em nossos comentários sobre isso.

TAB: Em que precisamos focar, então?

PK: É um momento muito estranho. É a primeira vez na história que temos um lockdown coordenado. A lição é que provavelmente precisamos focar na saúde da migração, o que significa permitir que pessoas se movimentem, se transfiram de um lugar para o outro, certificando-se ou criando imunidade para tanto, porque grande parte de nossas economias depende disso.

TAB: Que imagem você tem do Brasil em termos de resiliência?

PK: O Brasil dispõe de muitas matérias-primas e recursos, mas também tem desigualdade e uma infraestrutura precária — e ainda prioriza a exportação de petróleo, que vem perdendo valor. O Brasil tem que investir internamente. Acho que a lição número um da pandemia é que os países devem investir em si mesmos e aproveitar ao máximo seus recursos físicos e humanos, além de aprimorar a infraestrutura, mas fazê-lo da forma mais sustentável possível. Então, a boa notícia para o Brasil é que ele tem os elementos, tem os recursos, tem as pessoas, tem a terra, tem a comida, tem a energia. Mas a má notícia é que precisa de um sistema político mais resiliente.

Parag Khanna em 2018 - Divulgação - Divulgação
Parag Khanna em 2018
Imagem: Divulgação

TAB: Você tem clientes brasileiros? Qual a maior preocupação deles?

PK: A Petrobras é cliente. A maior preocupação dela é o baixo preço do petróleo e a diversificação de seus negócios para se adaptar ao novo cenário energético global e permanecer na vanguarda da tecnologia.

TAB: Em uma cerimônia de 7 de outubro, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que havia acabado com a Operação Lava Jato porque não haveria mais corrupção no governo. Você já escreveu sobre a corrupção no Brasil em alguns dos seus livros. Diria que a corrupção é universal? E como ela corrói o sistema?

PK: Os requisitos das "regras de origem" para as aquisições da Petrobras são um exemplo de como isso é complicador. Ferem a própria empresa, porque impedem a Petrobras de ter os mais altos padrões em equipamentos e tecnologia. A corrupção é quase universal, e geralmente mais complicada de se incrustar em países pequenos, onde há maior transparência sobre recursos já limitados. Além de não poderem se dar ao luxo de desperdiçar seu capital financeiro ou humano, como o fazem os grandes países, há ciclos de feedback rápidos: a população percebe o que está acontecendo e pode protestar rapidamente. A capital administrativa também não fica distante, diferentemente das capitais do Brasil, da Índia e da Rússia, por exemplo, condição que favorece a esses países serem corruptos por mais tempo. Dinamarca e Singapura, onde moro, são exemplos de países pequenos não corruptos. Existem pouquíssimos "grandes" com essa característica, como Canadá e Austrália. Mas veja que ambos têm populações muito pequenas. São apenas coincidentemente grandes em extensão territorial.

TAB: Como o resultado das eleições para presidente dos EUA pode afetar o sistema global?

PK: Se Trump vencer, o mundo continuará a construir conexões além e ao redor dos EUA. O protecionismo norte-americano claramente encorajou outros países a buscar novos mercados. Lembre que a China reduziu as tarifas de importação sobre vários produtos para absorver as exportações desses países, amarrando-os mais estreitamente. Acredito que, se Joe Biden vencer, os EUA participarão mais ativamente dos processos multilaterais. Mas esses processos não são tão importantes quanto são as estruturas de poder, como as alianças.

TAB: Bancadas religiosas têm conquistado cadeiras nas estruturas de poder. Como avalia essa participação?

PK: Não acredito que a religião seja uma força importante na política — embora seja muito visível. Em última análise, nem o Brasil nem os EUA estão tomando decisões políticas importantes com base na religião. Estão apenas falando sobre isso para apaziguar alguns eleitores.

TAB: Sua carreira foi pautada por visitas a diferentes culturas. Você conhece mais de 150 países, e sua esposa e seus dois fihos também colecionam muitas milhagens. Como a pandemia alterou sua atividade profissional e o dia a dia em casa?

PK: Fiz toda a minha carreira por meio de viagens, mas nos adaptamos perfeitamente à medida que os encontros presenciais migraram para a internet e meus clientes estão mais interessados em conteúdo e estratégia do que em eventos físicos. Como eu, meus filhos e minha mulher temos passado muito tempo juntos e curtindo o ar puro e a natureza, nos sentimos muito em contato com o mundo, mesmo não viajando tanto por ele.

TAB: Como nutrir otimismo nas crianças em um cenário tão incerto e negacionista?

PK: Acho que as crianças estão cientes do que está acontecendo com elas durante o isolamento social. Isso está ocorrendo com adultos e crianças em todo o mundo, na verdade. O fato de termos essa conectividade universal disseminou o vírus muito rapidamente, mas também espalhou um senso de simpatia e empatia.