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Com aumento de casos graves de covid-19, UPAs de BH viram UTIs improvisadas

UPA Barreiro, em Belo Horizonte, ganhou uma tenda improvisada para que os pacientes com sintomas respiratórios ou de covid-19 - Juliana Baeta/UOL
UPA Barreiro, em Belo Horizonte, ganhou uma tenda improvisada para que os pacientes com sintomas respiratórios ou de covid-19
Imagem: Juliana Baeta/UOL

Juliana Baeta

Colaboração para o TAB, de Belo Horizonte

18/04/2021 04h01

É uma sinfonia torturante. Ao entrar em uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) de Belo Horizonte, a primeira coisa que chama atenção é o som. O barulho agudo e contínuo é semelhante ao de um engarrafamento em horário de pico. No corredor, macas improvisadas se espalham pelo chão, enquanto o ruído fica mais alto, indicando sua origem: a sala vermelha. É para lá que são levados os pacientes graves de covid-19.

O ruído vem dos monitores multiparamétricos, aparelhos que monitoram a saúde dos acamados indicando pressão arterial, frequência cardíaca e saturação do oxigênio. O apito é o sinal de que algo vai mal com o paciente, mas, quando todos os monitores gritam ao mesmo tempo e sem interrupções, o alerta é de colapso na saúde pública. Há muitas vidas em risco e pouca estrutura para salvá-las.

Na UPA Norte, em Novo Aarão Reis, a sala vermelha, ou sala de emergência, passou a acomodar 15 pacientes (às vezes, mais) em um espaço que, antes da pandemia, tinha capacidade para apenas cinco. Os casos graves de covid-19 ultrapassaram as salas de emergência e começaram a ocupar todo o lugar. Enfermarias, corredores, setores pediátricos e alas para pacientes que convalescem de outras doenças viraram campos de batalha. Uma enfermeira que preferiu não ser identificada confirmou que foi necessário colocar uma maca no espaço de um chuveiro, onde os pacientes tomavam banho. "O problema é que ali não há ponto de oxigênio", desabafa.

Há cerca de um ano, os profissionais da saúde pública da capital mineira tinham conseguido domar a escassez de recursos, mas os improvisos e adaptações viraram parte da rotina de enfermeiros, técnicos e médicos, que jamais pensaram precisar escolher quem viveria e quem morreria. Há duas semanas, o momento de colapsar chegou. A ocupação dos leitos de UTI atingiu o teto. Não havia mais como criar "puxadinhos" para acolher tantos doentes. Foi preciso fazer a opção mais difícil e dolorosa. "A Central de Leitos passou a receber internações somente de pacientes mais jovens ou com saturação de oxigênio razoável", detalha a profissional de saúde.

A média de mortes por covid-19 em cada UPA era de, no máximo, duas por semana. Entre 26 de março a 7 de abril, contudo, foram registrados 103 óbitos em 8 das 10 UPAs de Belo Horizonte. Ao menos 20 desses pacientes morreram enquanto aguardavam transferência para um hospital. Os dados são do Sindibel (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Belo Horizonte).

Entrada da UPA Leste, em Belo Horizonte - Juliana Baeta/UOL - Juliana Baeta/UOL
Entrada da UPA Leste, em Belo Horizonte
Imagem: Juliana Baeta/UOL

Cenas de guerra

A enfermeira Conceição Cabral, 57, que trabalha na UPA Barreiro e já completa três décadas de profissão, nunca pensou viver algo assim. Uma de suas pacientes, de 85 anos, chegou a ter o nível de saturação de oxigênio em 75%, quando o ideal é de, no mínimo, 95%. "A Central de Internação havia liberado vaga somente para pacientes que estivessem recebendo menos de 12 litros de oxigênio", lembra. E não era o caso daquela paciente. Além disso, a orientação era de que seriam priorizados os pacientes mais jovens para internação. A decisão foi transferir para a UTI um paciente de 32 anos, também com saturação baixa de oxigênio: 78%. Dias depois, ambos faleceram.

"É muito triste ver isso acontecendo. Essa senhora sempre conversava com a gente, pedia para ir ao banheiro sozinha. É deprimente ver alguém que dedicou toda a sua vida a produzir, ajudou a construir as riquezas do país, chegar a essa situação de não ter o direito nem de lutar pela sua vida. Tem dias que eu chego em casa chorando, vou dormir preocupada em saber quem iremos perder no dia seguinte", desabafa.

A UPA Barreiro ganhou uma instalação na área externa: uma tenda improvisada para que os pacientes com sintomas respiratórios ou de covid-19 possam aguardar atendimento ali.

Na manhã do último domingo (11), o critério de internação por idade também foi registrado na UPA Leste, onde o setor de urgência abrigava cinco pacientes em estado grave. Dos três intubados, dois acabaram morrendo enquanto aguardavam uma vaga de terapia intensiva.

A secretaria municipal de Saúde confirma que houve aumento significativo da gravidade dos quadros clínicos, mas nega que algum dos pacientes tenha morrido por falta de assistência nas UPAs. Os critérios para transferência, segundo a pasta, são por gravidade e leito disponível.

A podóloga Claudineia dos Santos, à espera de notícias do marido na UPA Oeste, em Belo Horizonte - Juliana Baeta/UOL - Juliana Baeta/UOL
A podóloga Claudineia dos Santos, à espera de notícias do marido na UPA Oeste, em Belo Horizonte
Imagem: Juliana Baeta/UOL

Temor constante

Em tempos normais, um paciente pode aguardar, no máximo, 72 horas para ser encaminhado de uma UPA para um leito de UTI. Se a situação for grave, a transferência deve ser imediata. Atualmente, muitos pacientes têm aguardado mais de 10 dias por uma vaga.

De outra parte, pacientes sem covid-19 que precisam recorrer às UPAs enfrentam demora no atendimento e o medo de contrair a doença. Na UPA Oeste, por exemplo, o setor de urgência, que passou as últimas semanas lotado, foi apelidado pela equipe de "covideiro", por reunir no mesmo espaço pacientes com covid-19 e sem a doença.

Os profissionais de saúde trabalham em condições precárias, e muitos dobram a jornada para não faltar atendimento. "O pessoal tem sido muito cooperativo, mas não adianta ter amor e cuidado se não há recursos", conta uma técnica de enfermagem da UPA Oeste, que preferiu não ser identificada.

A unidade tem apenas três respiradores. Por isso, às vezes a equipe pega emprestado algum da ambulância. "No meu último plantão, quatro pacientes tiveram parada cardiorrespiratória ao mesmo tempo. A gente está vendo pacientes agonizando e não tem respirador para todos. Os familiares quase agridem a gente."

O medo de contrair a doença é o sentimento da podóloga Claudineia dos Santos, 35, que no último sábado (10), aguardava por notícias do marido, do lado de fora da UPA Oeste. Ele teve um princípio de AVC e precisou ser levado para a unidade com urgência. "Quando trouxe o Milton, dormi na cadeira lá dentro. Mas a gente fica com medo de pegar essa doença — de ele pegar, principalmente. Eu já tive covid-19 há uns dois meses e é muito ruim."

No mesmo dia, o conferente recebedor Thiago Francisco, 34, sentia o mesmo medo na UPA Venda Nova, onde aguardava notícias do pai, de 64 anos, do lado de fora da unidade. Ele precisou ir para a UPA porque passou mal em casa e teve uma crise de vômito. Não conseguia mais articular as palavras.
"Ficamos desesperados porque ele já teve uma bactéria no sangue, um problema de saúde sério, mas até agora está aguardando atendimento na sala de soro e ninguém nos informou ainda o que ele tem. E aqui está cheio de gente com covid-19. E se ele sair daqui com mais essa?".

A enfermeira Aline Lara, do Centro de Saúde Guarani, em Belo Horizonte - Juliana Baeta/UOL - Juliana Baeta/UOL
A enfermeira Aline Lara, do Centro de Saúde Guarani, em Belo Horizonte
Imagem: Juliana Baeta/UOL

Sentença de morte

Por causa do aumento no número de casos graves de covid-19, os Centros de Saúde também passaram a absorver parte da demanda. É que os postos de saúde, onde profissionais e pacientes criam vínculos, acabam se tornando referência nas comunidades e, nesse momento, uma esperança de atendimento.

Nas últimas semanas, a enfermeira Aline Lara, 38, do Centro de Saúde Guarani, presenciou a chegada de equipamentos que antes nunca passaram por ali, como respiradores. No último mês, a unidade chegou a receber em um mesmo dia 40 pacientes com sintomas de covid-19, movimentação completamente atípica.

Com 15 anos de profissão, Aline escolheu trabalhar em Centros de Saúde justamente pela proximidade com o paciente, que é "a filha da dona Maria, o avô do fulano, a esposa do José". A ligação é tão forte, que quando alguém morre, dói em todos.

Quando um de seus pacientes chegou ao Centro de Saúde com sintomas graves de covid-19, ela e a equipe trataram de estabilizar o homem, de 47 anos, e acalmar sua esposa. Após ser encaminhado para a UPA, Aline recebeu a notícia de que ele não havia resistido.

"Isso me marcou muito porque a gente realmente tinha confiança de que ele iria melhorar, e passamos isso pra ele e pra esposa. Quando soube da morte, a minha vontade era ir embora pra casa e chorar. A gente sonha com isso, fica lembrando o rosto dele, do desespero da esposa", conta.

O procedimento feito pela equipe é padrão. Com as portas abertas para a comunidade, o Centro de Saúde acolhe qualquer pessoa que busca atendimento. Nos casos mais graves, os profissionais da unidade trabalham para estabilizar rapidamente o paciente e encaminhá-lo para a UPA. Mas muitas vezes, a equipe tem esbarrado na resistência dos próprios doentes.

Recentemente, a equipe de Aline atendeu um paciente que foi estabilizado rapidamente e deveria ser encaminhado para a Unidade de Pronto Atendimento o quanto antes. "Mas a esposa dele estava morrendo de medo, achando que ir para a UPA é sentença de morte. Já aconteceu de paciente que precisava ficar no oxigênio assinar termo de recusa para não ir para a UPA."