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'Imprensa golpista': jornalistas são confundidos com estelionatários em SC

Repórter do TAB apresenta documentos para PMs catarinenses durante "enquadro" em Marema (SC) - Caio Guatelli/UOL
Repórter do TAB apresenta documentos para PMs catarinenses durante 'enquadro' em Marema (SC)
Imagem: Caio Guatelli/UOL

Rodrigo Bertolotto

Do TAB, em Marema (SC)

19/06/2021 04h01

Dois forasteiros chegam a um vilarejo e têm de encarar a desconfiança da população. Poderia ser o roteiro (bem batido) de um filme de faroeste. Na verdade, é a história da equipe de reportagem do TAB no município com maior mortalidade do país durante a pandemia. A única coincidência cinematográfica é que a pequena Marema fica no (nada selvagem) oeste catarinense.

Logo na segunda entrevista, diante de uma bucólica casa de madeira caprichosamente pintada em dois tons de verde, fomos cercados por três PMs em duas viaturas. Agora quem fazia as perguntas eram os agentes da lei. A razão? Marema em peso está no grupo de WhatsApp "Rede de Vizinhos", e desconfiaram de uma dupla (eu e o fotógrafo Caio Guatelli) que fotografava e conversava com as pessoas pelas dez ruas da cidadezinha.

Depois de farsantes fingirem ser delegado, promotor de Justiça, agente da Vigilância Sanitária ou vendedor de trator para enganar gente crédula do interior, chegaria a vez do golpe do "falso jornalista paulistano" pelos rincões nacionais, colhendo imagens e informações para posteriormente dilapidar o patrimônio alheio.

Até me lembrei de quando era chamado de "golpista", lá pelo longínquo ano de 2014, por algum militante mais exaltado que descobria minhas credenciais profissionais. Já vinha me conformando com o rótulo de "extrema imprensa", em uma nova e mais perigosa fase do jornalismo, mas voltei de repente ao papel de golpista — com um inesperado sentido agora.

Quando o repórter vira notícia

Após atravessar dez quilômetros desde o vizinho município de Lajeado Grande, os PMs interromperam nossa entrevista com um simpático senhor que fazia piadas em dialeto vêneto. Pediram documentos, crachás e começaram o interrogatório: "O que fazem aqui?", "De onde são?", "Tem algum documento com CPF?".

Passados 20 minutos, várias checagens e nosso carro revistado, os policiais nos deixaram continuar a investigação, enquanto grupos de moradores acompanhavam à distância a movimentação atípica.

marema (SC) - Caio Guatelli/UOL - Caio Guatelli/UOL
Placa mostra que bairro de Marema (SC) é monitorado e acompanhado por grupo de moradores no whatsapp apelidado "rede de vizinhos"
Imagem: Caio Guatelli/UOL

Não parou aí. Depois da abordagem, houve ainda uma comunicação de alguém da delegacia local para a Arfoc (Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos), falando que o delegado queria ter uma conversa. "A gente precisaria falar com ele [Caio] aqui na delegacia, para esclarecer que trabalho ele está fazendo e para o pessoal aqui ficar mais tranquilo, porque o pessoal está um pouco que desconfiado, né?"

A descrença nos acompanhou em boa parte das casas nas quais parávamos para conversar. Olhares pelas janelas, frases como se as pessoas já soubessem quem éramos. "São os caras que estão falando no grupo. Não quero eles aqui", disparou a mãe de uma vítima de covid-19 para seu marido, que estava relatando o drama da família durante a pandemia.

Em outra casa, Alda Bellaver saiu com celular em punho, tirando fotos nossas. "Não conhecemos vocês. Vou bater foto de vocês também. Hoje, tem muito bandido por aí. Teve um sujeito que veio vender um filtro de torneira, levou meu dinheiro e nunca mais apareceu. Embromou muita gente", dizia, apresentando suas justificativas. Depois de uma boa prosa, ela baixou a guarda e contou sua história.

O chicote estralou

A cena mais hostil, porém, foi no dia seguinte. Depois de entrevistar uma família que perdera duas pessoas para a covid-19, paramos em uma estrada de terra para fotografar um cavalo diante da bela paisagem de serras verdejantes. A cena idílica se encerrou quando um vaqueiro veio correndo, com um chicote em punho e ameaçando:

- Abaixe essa câmera já. Estou farto de vocês, raça desgraçada! Saiam agora da minha propriedade, antes que eu faça com vocês coisa pior do que vocês fazem aqui. Saiam antes que eu arranque vocês daqui.

O fotógrafo baixou a câmera, parou de argumentar com o vaqueiro, que não estava para diálogos, e partimos dali.

marema (SC) - Caio Guatelli/UOL - Caio Guatelli/UOL
Cartaz proíbe visita em casa de Marema (SC), que lidera ranking como a cidade com a maior mortalidade proporcional à sua população
Imagem: Caio Guatelli/UOL

O vaqueiro só faltava falar "essa cidade é pequena demais para nós dois" e chamar para um duelo, algo usual no século 19. Os tempos estão tão retrógrados que o costume pode voltar.

Caio, o fotógrafo, analisou o que aconteceu. "Em tempos de gente se informando só por WhatsApp, as fake news que rolavam no grupo de Marema eram todas sobre nós. Passamos de simples jornalistas atrás de uma reportagem a temidos ladrões e estelionatários atrás do dinheiro das pessoas. Com o passar das horas, ficou fácil saber quem eram os mais viciados em rede social. Esses lançavam olhares temerosos de longe."

Em uma cidade minúscula, as notícias se espalham como fogo morro acima -- e o WhatsApp entra como combustível desse incêndio. O curioso é que no bairro mais pobre, onde o grupo "Rede de Vizinhos" não estendia seus tentáculos virtuais, fomos recebidos tranquilamente. As pessoas entendiam prontamente quando dizíamos que éramos jornalistas e apresentavam a atitude costumeira de querer que suas histórias fossem contadas.

Bandoleiros mascarados

Chegamos a Marema depois de uma viagem de cinco horas de avião e carro, partindo de São Paulo. Como as repartições públicas já estavam fechadas (estão em turno único até as 13h para economizar orçamento) e os três e-mails enviados na semana anterior não foram respondidos pelas autoridades locais, decidimos dar uma volta na cidade para nos localizar.

Na primeira curva, surge uma casa com a seguinte placa da janela: "Por ordens médicas está proibido qualquer tipo de visita!". Paramos para fotografar. Mesmo explicando que fazíamos uma reportagem, a vizinha veio olhar, desconfiada. Foi o começo do pânico.

Já fiz muita reportagem em cidade pequena pelo Brasil. Claro que a receptividade varia, mas, mesmo nas mais fechadas, seja pela distância dos grandes centros, seja por ser formada por alguma colônia estrangeira (como a italianíssima Marema), a desconfiança inicial vai se dissipando com as apresentações e as conversas.

Em Marema foi o contrário. Quando mais argumentávamos, mais parecia que estávamos engrupindo quem já estava alimentado por boatos e teorias conspiratórias. Não adiantava falar: "Olá, somos jornalistas lá de São Paulo, podemos conversar?"

marema (SC) - Caio Guatelli/UOL - Caio Guatelli/UOL
Alda Bellaver, moradora de Marema (SC), observa movimentação da janela de sua casa
Imagem: Caio Guatelli/UOL

A indispensável máscara não colaborava nesse aspecto e dava um ar de bandoleiros aos repórteres. Em determinado momento, parecia que as pessoas tinham mais medo da gente do que do vírus que ceifou 14 vidas da cidade.

Em minha primeira viagem distante durante a pandemia, achei que o papel de medroso caberia a mim, afinal estava adentrando um foco da pandemia, onde a mortalidade batia recorde, a letalidade da doença é o dobro do índice nacional e 23% dos moradores já se contaminaram.

Até a secretária municipal de Saúde, Jaquelini Moro, estava incomodada com as mensagens se acumulando no grupo. "Quando vocês vão embora? Não aguento mais esse WhatsApp", perguntou ao fim de nossa entrevista sobre as providências para evitar mais mortes por covid-19.

Fiquei imaginando a cidade inteira soltando rojões quando atravessamos a divisa do município para a próxima reportagem.