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Cerveja em copo de chifre: um dia na vila viking de Juquitiba (SP)

Entusiastas da cultura nórdica encontram-se na Vila Viking Brasil, em Juquitiba (SP) Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL

Cindy Wilk

Colaboração para o TAB, de Juquitiba (SP)

12/07/2021 04h01

A partir do centro de Juquitiba (cerca de 80 km da capital paulista), uma estrada de terra batida testa os amortecedores do carro. Eis que uma indiscreta paliçada de madeira rústica, com torre de observação e guardada por um crânio de boi, destoa dos demais portões de sítios e chácaras.

Sob a torre, um portão de madeira é aberto — ou seria um portal? A impressão faz mais sentido quando a reportagem de TAB depara com o interior da fortaleza: um assentamento de pitorescas construções de madeira, cenário surrealista esmaecido pela leve bruma que se desprende de piras de lenha fumegantes aqui e ali.

Ao som de música medieval, nosso anfitrião se apresenta. Ele é o paulistano Paulo Cesar Frade Revuelta, 34. Estamos diante do Jarl (pronuncia-se "iáu"), o chefe, no sentido tribal da palavra, da Vila Viking Brasil, lugar que reproduz o estilo de vida da era viking, entre os séculos 8 e 11.

Paulo usa chapéu de pele, faca pendurada na cintura, botas de couro e o peito nu, coberto por uma dezena de tatuagens que seguem a arte do período — duas delas foram feitas com a técnica do handpoke, sem máquina elétrica. Nas costas, um enorme mlolnir, o martelo de Thor.

A tatuagem nas costas de Paulo Cesar Revuelta Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL

"Diferente do que mostra a série 'Vikings', os vikings não vestiam roupas de couro", diz Paulo, acrescentando que opta pelas calças vikings da vertente eslava, mais confortáveis.

Primeira lição do dia: ser viking era uma espécie de profissão dos nórdicos antigos, como a pirataria, o que faz com que cada um ali possa escolher elementos de um pedaço da Europa medieval onde esses invasores podem ter chegado.

E eles foram longe. Entre pilhagens de verão, no século 8, e depois rotas comerciais, há registros históricos da passagem dos vikings por muito além do que hoje é o Reino Unido, chegando até a Islândia, Groenlândia, Península Ibérica e o leste europeu.

O que significa ser viking, nos dias de hoje e em Juquitiba, exige uma explicação um pouco mais complexa. Melhor começar dizendo que a Vila Viking não é mero espaço de eventos, muito menos um parque de diversões, por mais saudoso que o barco viking do Playcenter seja.

O terreno de 6 mil m² de extensão é definido por Paulo como um museu vivo, um espaço de imersão cultural e, principalmente, um lugar para praticar o "recriacionismo histórico". A única embarcação ali, por enquanto, está representada num petroglifo gravado numa pedra próxima à entrada.

Do Grande Salão, onde está o trono do Jarl, às cabanas históricas, forja, arena ou taberna, tudo foi baseado em registro histórico e construído pela comunidade de recriadores.

Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL
Paulo Revuelta Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL

Um dia comum no século 8

No ensolarado sábado de julho em que TAB esteve ali, os portões da Vila Viking se abriram para cerca de 20 pessoas, via agendamento prévio pelo site e ao preço de R$ 40. Não era dia de workshop de tecelagem ou alimentação histórica, nem de treinamento de guerra ou festividades como o Yule, que marca o solstício de inverno. Aquele era apenas um dia comum num lugar diferente. Não há sinal de celular ou wifi, e conversas sobre política ou futebol devem ficar do lado de fora. "Respeitamos todas as opiniões, mas aqui não é lugar. Atrapalha nossa imersão", diz o Jarl.

A ideia era circular pela vila e conversar com os recriadores, tirar dúvidas sobre história ou religião nórdica, acompanhar uma demonstração de luta, arco-e-flecha ou a forja de algum objeto de metal, provar algo que os vikings poderiam ter comido ou tomar hidromel em um copo de pedra. Talvez ser chamado para ajudar a cortar lenha ao estilo da época ou alguma outra atividade que exija braços. Às vezes fica difícil diferenciar recriadores de visitantes, uma vez que, para chegar ali, algum interesse no assunto o sujeito já tem.

O recriacionismo é um hobby, digamos, histórico. Os romanos já recriavam batalhas famosas. Hoje são muito populares mundo afora as encenações realistas de guerras e civilizações antigas, além de recortes temporais, como a Idade Média.

Usar os vikings como temática é algo relativamente novo. A maior e mais antiga sociedade do gênero, a The Vikings, foi fundada no Reino Unido em 1971, e tem mais de 1.500 membros. No Brasil, a cena é bem mais tímida, porém surpreendente. São mais de 15 grupos pequenos, os "clans", muitos deles focados em recriação histórica de combate. Paulo acredita que há cerca de 300 recriadores vikings espalhados pelo país. "Uns 70 ou 80 deles já estiveram aqui", diz.

Cintia Leite 'defuma' Thallys Henrique da Silva com ervas, numa espécie de cerimônia para trazer boas energias à Vila Viking Brasil, em Juquitiba (SP) Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL
O Grande Salão da Vila Viking Brasil, em Juquitiba (SP): é ali no chão que dormem os recriadores Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL

Ex-engravatado da Paulista

Paulo, que atende também pelo nome de Baldur, em homenagem a uma das divindades nórdicas, é recriador há mais de 10 anos. Quando trabalhava de terno e gravata como assessor jurídico da área de contratos da Fecomercio, em São Paulo, construía móveis em madeira com entalhes do período.

Há 3 anos, veio a chance de aderir ao programa de demissão voluntária e, com mais dois sócios recriadores, investiu tudo que tinha no terreno de Juquitiba. De lá para cá, Paulo e sua mulher, Gabriela Almeida Revuelta, tiveram um filho, hoje com 2 anos.

Nem isso, nem uma pandemia no meio do caminho, impediu a Vila Viking de tomar forma, mirando o exemplo de outras vilas estrangeiras, como a dinamarquesa Ribe, a alemã Hedeby ou a norueguesa Gundvagen. O ramo continua em plena ebulição.

"Tudo foi acontecendo como seria no período, mesmo. Construímos o Grande Salão pois precisávamos acomodar mais gente. A necessidade de um ferreiro surgiu para fazer os pregos e outras ferramentas, e a paliçada, para dormirmos mais tranquilos. É como um assentamento do período. Conforme vai crescendo a família e outras pessoas vão se juntando, vai se tornando uma vila", diz Paulo.

Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL
Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL

Casamento viking

Uma destas famílias é a da maquiadora Cintia Leite, 33. Quase todo sábado de manhã, ela, o marido e o filho pegam 4 horas de estrada desde Curitiba para passar o fim de semana na Era Viking.

Cintia caiu na recriação há 12 anos, quando passou a produzir hidromel, bebida alcoólica feita a partir da fermentação do mel. A marca, Yggdrasill, já ganhou prêmios. Ali ela é Sigvor, a mercadora que toca a taverna, e seu marido, o técnico em TI Johann Gomig, 29, vira Thorkell.

"Quando vamos atrás de um recorte histórico, tentamos montar uma historinha", diz Johann, que entrou neste mundo pelo universo da luta. "Sou um ex-combatente da Guarda Varegue, mercenários bizantinos já do final do período viking, mas estou aposentado, hoje apenas acompanho a mercadora", ri. Os dois se casaram em 2018, em uma cerimônia tradicional viking.

Saiu das panelas de ferro de Sigvor o almoço do dia, duas opções que podiam ser deliciosamente combinadas. O agridoce apple bacon leva maçãs, linguiças e bacon, enquanto a opção vegetariana mistura vagem, aveia, cogumelos e aipo.

"São receitas criadas a partir de ingredientes disponíveis no período", conta Cintia, que costuma pilotar também os workshops de culinária histórica e banquetes festivos.

O artista visual Vinicius Ferreira Arruda diz não encarnar um personagem, apesar de ser conhecido por muitos como Hjörvardr, o nome de sua oficina de facas, espadas, machados e armaduras, há 9 anos no mercado.

Sua porta de entrada foi o cosplay, ainda na faculdade. "O cosplay é uma brincadeira com vestimentas, em que se vive personagens de ficção ou fantasia. Já na recriação não é preciso necessariamente compor um personagem, mas entender como se vivia na época. É mais pesquisa do que entretenimento", compara o ferreiro. Ele mesmo construiu a cabana onde está a forja de onde saíram as ferramentas e até muitos dos pregos usados na construção da vila.

Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL
Cintia Leite, Johann Gomig e seu filho William na Vila Viking Brasil, em Juquitiba (SP) Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL

Os caminhos que levam à Era Viking

Em outra cabana, o mercador Edson Fernandes de Mello e o espadachim Rodrigo Alvarez conversavam animadamente tomando uma cervejinha em copo de chifre. Os amigos recriadores ilustram bem os variados caminhos que levam à Era Viking.

Edson chegou pelo heavy metal, cujas capas de discos frequentemente exaltam figuras nórdicas. Hoje ele é Erik, da Hersir, que vende espadas, elmos, armaduras, calçados históricos e joias, tudo produzido conforme achados arqueológicos.

Rodrigo, de ascendência espanhola e morador de Juquitiba, mesmo, sempre foi apaixonado por história e, ao fazer faculdade de educação física, juntou as paixões. Ele é atleta de HMB, sigla em inglês para Combate Medieval Histórico.

Já lutou por 3 anos pela Liga Brasileira de Combate Medieval no Battle of the Nations, competição mundial anual que acontece em castelos medievais europeus. Naquele mesmo sábado, Rodrigo vestiu sua armadura e elmo para demonstrar com Jarl Baldur as técnicas de luta viking.

Muitas vezes, os caminhos que levam à Vila Viking passam por outros temas e cenários. É o caso da operadora de telemarketing Gabriela Ramos, que "está nos vikings" há apenas 2 anos, tendo passado por eventos celtas, piratas e steampunk, uma vertente da ficção científica que mistura Era Vitoriana com Revolução Industrial. Hoje, ela estuda tecelagem tradicional e faz cintos que expõe na vila duas vezes por mês.

Coincidência ou não, é trajetória semelhante a da nutricionista Erika Reginato, 30, de Mogi das Cruzes (SP). Na Vila Viking é sua primeira vez como visitante mas, desde 2015, frequenta encontros medievais, vitorianos e até piratas. "Uma mistureba", confessa. "O que me atrai é a estética, o ambiente que me traz calma, não pega wifi, 3G, é um jeito de fugir da vida real para um mundo de fantasia."

O que fazem nas sombras

Quando os visitantes vão embora ou nos dias em que os portões estão fechados, os recriadores pegam no batente ainda mais pesado. Segundo o plano mental do Jarl Baldur, há muito o que construir ainda. Ninguém é remunerado. "As pessoas estão aqui porque gostam, porque acreditam nisso aqui, e o que você faz aqui fica para o próximo e isso vai motivando mais gente.
Os recriadores se revezam na Vila, vão quando querem, num esquema que parece mais casa de amigos para passar o fim de semana. Ninguém de fato mora no lugar.

Os que ficam para dormir, se querem privacidade, armam o feno e arrastam um pelego para as cabanas. A maioria dos vikings de Juquitiba, no entanto, acaba adormecendo pelo Grande Salão, após uma sessão de conversas regadas à hidromel, contação de história ou leituras de trecho do Hávamál, a espécie de Bíblia que compila os ensinamentos de Odin. "Discutimos nossos feitos, vemos o que entrou de recursos e decidimos o que fazer com eles", diz Paulo, um Jarl com planos ambiciosos.

Sua meta de vida é terminar a vila, fechar a paliçada todinha, construir a Longhouse, começar a criar animais, aumentar a plantação (hoje eles têm uma horta), construir um barco viking e levar para a represa Cachoeira do França para navegar. O machado para construir esta embarcação já está separado. "Quando colocar fio nele, eu começo, será um símbolo deste momento."

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