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Clubhouse já era? Não para os MCs, que agitam as noites de sexta no app

MD Black, na Batalha da Inácia realizada em agosto em Perus, bairro da zona noroeste de São Paulo - Ulisses Sulivan/Divulgação
MD Black, na Batalha da Inácia realizada em agosto em Perus, bairro da zona noroeste de São Paulo Imagem: Ulisses Sulivan/Divulgação

Marina Santa Clara

Colaboração para o TAB, de São Paulo

30/09/2021 04h01

O Clubhouse "flopou"? Não para os fãs das batalhas de MC. Enquanto ensaiam um retorno às ruas, artistas frequentam a sala "Club da Rua" no aplicativo. Toda sexta-feira, a partir das 20h, o evento reúne mais de 300 pessoas, entre admiradores e competidores. Nesse período, mais de R$ 30 mil foram arrecadados e repassados aos vencedores.

Alex Sandro Alves Barros, 28, é empresário e um dos organizadores. Ele conta que a ideia surgiu durante um bate-papo entre amigos, fãs de rap, em uma sala no Clubhouse. "Começamos pedindo Pix mas, mesmo que não rolasse uma premiação legal, seria bom para movimentar a cena. Não imaginávamos o retorno. Na primeira edição o prêmio foi de R$ 600. Na segunda foi de R$ 800. Na terceira já foi de R$ 4.000, com algumas doações em dólar", conta ele. Todo o dinheiro arrecadado na noite vai para quem vencer.

"Nós não ganhamos nada, nem os convidados", afirma DJ Zeu, 38, há mais de duas décadas na cena hip-hop de Belo Horizonte (MG), de onde apresenta a Batalha do Club. Por lá já passaram Emicida, Rashid e Rael. "Esses nós chamamos. E acaba aparecendo gente que entra na sala do nada. Já foi o [rapper britânico] 21 Savage, às vezes o Tico Santa Cruz..." diz Barros.

Para participar, é preciso preencher um formulário disponibilizado às quintas-feiras no perfil do Club da Rua no Instagram. São escolhidos oito competidores por edição. Quando é aberta a sala no Clubhouse, são anunciadas as quatro batalhas da noite.

De Curitiba, o "detailer" (restaurador automotivo) Leonardo Oliveira, 27, solta as batidas que servirão de base para as rimas de improviso. Os melhores nessa primeira etapa disputam duas semifinais e os dois vencedores vão para a grande final. Assim como na batalha tradicional, quem escolhe o melhor rimador é o público. Se na rua a regra é "fazer barulho" para o MC quando o nome dele é anunciado, no aplicativo, para escolher o preferido, aperta-se o botão com o ícone de mão, normalmente usado para pedir a palavra em uma sala durante um bate-papo. "Como tem menos meninas batalhando, tento não deixar mulher com mulher no primeiro round. Se coloco as duas no mesmo chaveamento, uma já sai de primeira." E há outras regras: rimas racistas, machistas e homofóbicas são proibidas.

Página do Club da Rua, canal do Clubhouse para batalha de MCs - Reprodução - Reprodução
Página do Club da Rua, canal do Clubhouse para batalha de MCs
Imagem: Reprodução

MC de pautas e causas

A reportagem acompanhou a edição da batalha em 18 de setembro. Após cerca de duas horas, foram para a final Devilzinha e Real Mother. Nos intervalos entre cada etapa, Milena Machado, 20, pedia doações via Pix, Paypal ou Picpay, em reais, dólares ou qualquer outra moeda. Revezando-se na apresentação com a cantora carioca Manu Jansen, 18, Nathalia Miranda, 20, estudante de nutrição de Bambuí (MG), e DJ Zeu, ela "contava as mãozinhas", ou seja, os votos para cada competidor.

"Limpa o sangue da tela depois desse round e levanta sua mãozinha para votar no seu preferido."

Ao final, Real Mother levou pouco mais de R$ 200 por W.O. Sua oponente também participava de uma batalha de rua, presencialmente. Acabou ficando sem sinal de celular para o último round on-line.

Bugs da tecnologia, aliás, são só alguns dos desafios para quem participa de uma batalha via aplicativo. A presença do público faz diferença, para o bem e para o mal. Real Mother (Aline Fernanda da Costa), 23, de São João da Boa Vista (SP), diz que é preciso criar uma estratégia diferente da usada na rua. "Sinto um pouco de falta de feedback do público, mas me sinto mais confiante porque sou uma pessoa muito tímida." Na rua, batalha desde 2017.

MC Real Mother - Fernando Coelho/Divulgação - Fernando Coelho/Divulgação
MC Real Mother, durante a Batalha da Aldeia
Imagem: Fernando Coelho/Divulgação

Devilzinha, 19, nasceu João Gabriel Ferreira de Azevedo. Definindo-se como não-binária, se diz "cria" das batalhas que já rolam há algum tempo pelo aplicativo Discord. Fez o caminho inverso: começou on-line e depois foi para a rua. "Não tenho vergonha de falar que aprendi na internet. Alguns MCs têm preconceito. E eu sou MC de pautas e causas. E eu fui para a rua porque vi um vídeo de uma travesti rimando na Batalha da Aldeia [que acontece no bairro do Morumbi, em São Paulo], a Monna Brutal. Aquilo me deu coragem."

Batalha, em todos os sentidos, para que outras "minas e monas" também se sintam seguras nas rodas. "O ideal é ter muita mina, muita mona, muito gay, muito travesti, muito homem e mulher trans. Porque o hip hop tem como principal pauta a inclusão de oprimidos, e essas pessoas muitas vezes são oprimidas. O hip hop é para elas e elas nem sabem."

João Eliel Gomes de Sá Costa, 19, de Brasília, o Gomes, é o único tricampeão do Club da Rua. Sua primeira batalha no app quase não aconteceu. Quando o Clubhouse se tornou febre no Brasil, em fevereiro, era restrito a convidados e só funcionava para quem tinha sistema iOS, da Apple. Em maio foi liberado para usuários de Android. Em julho, deixou de exigir convites.

"Eu baixei no telefone da minha mina e criei minha conta. Um dia antes da batalha, ainda tinha que ser aceito lá", relembra. Depois de ganhar R$ 7.000, somadas as três vezes em que saiu vencedor, o aspecto financeiro também passou a ser um atrativo. Com o dinheiro, além de pagar contas e até presentear oponentes, conseguiu comprar uma nova televisão.

Antes da pandemia, sua renda vinha do que arrecadava durante o dia fazendo rimas de improviso no transporte público. Agora, celebra o reconhecimento que vem conquistando no ambiente virtual. O Club da Rua, diz, é parte disso. "Depois da primeira batalha que fui campeão, consegui ser visto por pessoas que me levaram para fazer projetos musicais. Mas batalhar ali também me fez ser visto por pessoas que são referência, é uma vitrine e portfólio."

Também acostumado a ganhar a vida rimando no transporte público, MD Black, ou Mayk Douglas, 23, mora em São Paulo e já ostenta o título de bicampeão no Club da Rua. A ideia de uma batalha via Clubhouse, relembra, o deixou intrigado lá atrás.

As vitórias possibilitaram que pagasse alguns aluguéis. E a batalha serviu ainda para matar a saudade da rua. Entre a cultura e os boletos, MD celebra ainda a chance de interagir com MCs, algo bem mais difícil em uma batalha presencial. "Você consegue estar com pessoas que já têm outras formas de batalhar e sai faísca, é muito interessante." Para Alex Sandro Alves Bastos, a batalha no Clubhouse leva esse tipo de arte a pessoas nunca teriam contato com o rap. "Vai bastante gente de idade, gente que não sabe nem o que é."

Convidado de uma das edições e ídolo de 10 entre 10 competidores, Rashid, que também começou a própria carreira no rap em batalhas de MC, diz que se surpreendeu com a experiência. "Parece algo muito fora do convencional, e é, porque o visual é muito importante numa batalha de MCs. Mas, depois de acompanhar, pude perceber que, por estar só ouvindo a voz das pessoas, isso exige muito mais da criatividade. Você precisa de fato estar completamente conectado com a batalha para prestar atenção em tudo."

O saldo, ao final, é positivo — embora nada substitua a boa e velha batalha na rua. "Como diz o MC Marechal, o computador não capta a emoção espiritual. Não tem a gritaria da galera, mas a gente ganha de saber que existem essas possibilidades. O que eu sinto é que a gente está começando uma história", diz Zeu.