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Com milhões de views, vídeos de 'faxina sensual' se espalham pelo YouTube

M., que faz vídeos de faxina sexy para o YouTube Imagem: Reprodução

Marina Santa Clara

Colaboração para o TAB, de São Paulo

04/01/2022 04h01

"Oi, meus amores, sejam bem-vindos a mais um vídeo no meu canal. Hoje eu vou mostrar como eu limpo a minha cozinha. Enquanto eu começo, já vai deixando seu like e aproveita pra me seguir nas minhas outras redes, os links estão aí embaixo."

Nos primeiros segundos, parece só mais um vídeo de uma moça fazendo faxina na própria casa. Mas a mulher, de cara lavada e sem máscara, usando roupas curtas e decotadas, deixou um espelho estrategicamente posicionado no cômodo. É possível ver, de relance, parte do seio ou das nádegas, ao longo dos cerca de 10 minutos. Ela se senta, deixa a calcinha transparente à mostra, levanta-se, estica-se para guardar um pote de plástico e vai narrando os próprios movimentos, enumerando os produtos que usa em casa. Falando para a câmera estática, balbucia devagar uma porção de amenidades.

Os chamados vídeos de "faxina sensual", em sua maioria produções caseiras filmadas com celular, estão tomando conta do YouTube. Mulheres de faixas etárias diversas usam a plataforma como amostra grátis do que vendem em seus canais de outras redes, como o OnlyFans.

Só que, no YouTube, rede gratuita e acessível, as visualizações chegam à casa dos milhões. Conforme o canal cresce em número de inscritos e popularidade, tudo vai ficando mais incrementado, dos figurinos às locações.

A prática fere as diretrizes da plataforma. Não raro, essas produtoras de conteúdo perdem a monetização de seus vídeos ou têm seus canais derrubados. Quando o vídeo é mais explícito, elas mesmas desativam os comentários para evitar xingamentos, e assim tentam reduzir as chances de denúncia.

Todas contam com ao menos três ou quatro canais reserva. Quando um dá ruim, publicam vídeos em outro. A função do YouTube é, mais do que ser uma fonte de renda, direcionar quem deu like naquela estante bem limpinha para os perfis delas em sites onde de fato conseguem vender o próprio conteúdo, como OnlyFans, Patreon e Privacy.

Enquanto nos dois primeiros se ganha em dólar, no último, brasileiro, a vantagem é poder receber por PIX. Membros podem comprar fotos e vídeos de forma avulsa ou por assinatura, além de dar gorjetas. Em geral, os links já ficam na descrição dos vídeos.

M., em um dos vídeos no YouTube Imagem: YouTube/Reprodução

Vender conteúdo é o limite

As mulheres ouvidas pelo TAB (todos os nomes são fictícios) afirmam que, embora não façam programa, não são raras as ofertas. Algumas faturam vendendo conteúdo em uma negociação direta com o interessado. "Também vendo muita calcinha usada", conta D., 22, de Lajeado (RS).

A reportagem tentou entrevista com mais de 20 mulheres. A maioria não respondeu aos pedidos. Outras retornaram de forma desconfiada e ríspida, indício de que as entrevistadas não exageram quando dizem que há muito preconceito com o trabalho. Muitas, inclusive, usam máscara e peruca nos vídeos.

"A Anitta por exemplo tem OnlyFans. A gente não está fazendo nada de mais", diz E., 39, que vive numa cidade na região de Sorocaba (SP).

E. em um de seus vídeos no YouTube Imagem: Reprodução/ YouTube


"Fui mandada embora do meu trabalho quando ficaram sabendo e acabei mudando de cidade para não expor minhas filhas", conta M., que mora na mesma região e trabalhava em um banco, no setor de abertura de contas. Ela foi a única a ser entrevistada pessoalmente. Com as demais, a reportagem conversou por videochamada ou ligação telefônica.

Ficou combinado um encontro, numa tarde de quinta-feira, em um café no Jardim Europa, na zona oeste de São Paulo. Simpática e à vontade ao falar sobre o próprio trabalho, conta que faz planos de colocar silicone em breve. "Também quero tirar barriga, ficar bem 'panicat', sabe [risos]? Para mim é investimento, porque eu sei que vai dar retorno."

D. fez recentemente implante nos seios. A gaúcha começou seu canal no YouTube durante a pandemia, fazendo coreografias de k-pop, mas o número de inscritos não mudava. Até que um amigo falou da tendência dos vídeos de faxina sensual e ela resolveu testar.

No primeiro conteúdo apareceu lavando louça, mas contou que estava "dura", travada, meio desenxabida. "Mesmo assim o vídeo bombou", relembra. Criou um novo canal e hoje se divide entre a faculdade de biomedicina e a produção de conteúdo, com uma renda mensal que pode chegar aos R$ 15 mil. "Em novembro foi muito bom porque fiz promoção de Black Friday. Descobri meio que uma vocação, porque adoro dançar sensualmente. Até comprei uma barra de pole dance."

M., por sua vez, estava distante desse universo. A estudante de pós-graduação em geografia começou a fazer vídeos há um ano, quando uma amiga do trabalho mostrou os próprios conteúdos e contou que era possível ganhar muito mais que o salário mínimo que ela recebia. Muitas acabam abrindo canais de vídeos no YouTube. "Só no primeiro mês ela ganhou R$ 70 mil. No primeiro eu não quis ousar. Minha amiga falou: 'você não vai para a frente assim'. Aí eu pensei: 'quer saber? Tenho duas filhas'. Fui lá, fiz e hoje tenho vídeos com mais de 3 milhões de views", conta.

Vídeo de limpeza de espelhos no canal de B. Imagem: YouTube/Reprodução

Competição acirrada

No entanto, de lá para cá a competição ficou muito acirrada, avalia E. "Antes não era nudez; era um shortinho, aquela agachadinha, só. Hoje está em outro patamar."

Ela não pensa em continuar muito tempo à frente das câmeras e achou outro jeito de atuar neste mercado para quando quiser se "aposentar". "Trabalho ajudando pessoas que querem entrar nests nicho. Faço um pacotinho bem legal. Acho que já tive mais de 40 clientes. É um mercado em ascensão. Muita gente perdeu o emprego na pandemia."

A mineira B., 45, vive uma dúvida. De máscara, começou a fazer os vídeos sensuais há dois meses e se animou no início. "Eu tenho há três anos um outro canal normal, com dicas de tecnologia. Só consegui ganhar US$ 20. No novo, em 30 dias atingi quase US$ 400, mas agora não está mais assim."

Além da faxina, conteúdos com mulheres provando roupas, fazendo yoga ou falando com a audiência em ASMR (que têm como intuito provocar sensações prazerosas por meio de ruídos) também já têm suas versões sensuais. D. corre atrás das tendências. Na Twitch, rede de streaming de games, por exemplo, bombam os vídeos de mulheres com roupas decotadas lambendo microfones em forma de orelha, em conteúdos de ASMR, ou em trajes de banho, comendo um sanduíche na piscina. "Também tem o [app] Bigo Live. Não pode nudez, mas umas gurias tentam burlar, ficam dando uns gemidinhos. Eu vou dançar."

M., por ora, segue no YouTube e, enquanto o dinheiro entrar, não pensa em parar. Sonha em passar em um concurso público da Polícia Federal, além de participar do "Big Brother Brasil". Já tem CNPJ para receber pagando menos imposto.

Em um grupo de WhatsApp, ela e outras nove produtoras de vídeos conversam sobre política do YouTube, poses e trocam dicas. O lado ruim é saber que o conteúdo uma hora vai vazar. A comercialização de imagens adultas já fomenta um mercado paralelo. "Quem quer entrar nisso tem de estar consciente de que tem que dar a cara à tapa", diz E.

Já D. não pretende parar antes de estar "bem rica" para levar a mãe para viajar. "Ela não conhece nem a praia."

Procurada pela reportagem, a assessoria do YouTube afirma que o conteúdo compartilhado está sujeito a revisão de acordo com as diretrizes da plataforma. "Como descrito em nossas políticas de nudez e conteúdo sexual, não permitimos material explícito com o objetivo de satisfação sexual." Segundo a assessoria, para garantir um ambiente seguro, sistemas automáticos e revisores humanos são responsáveis por este trabalho. "Também contamos com a colaboração dos usuários para que denunciem conteúdo que acreditem estar em desacordo".

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