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Família Schurmann: o que os anos de vida a bordo ensinaram sobre isolamento

Luiza Pollo

Colaboração para o TAB

07/05/2020 04h00

Cinco pessoas dividem um espaço de pouco mais de 40 m². Durante 30 dias, ninguém pode sair, e o que está do lado de fora é imprevisível e perigoso. As aulas das crianças são feitas a distância, o convívio é intenso, e a diversão fica restrita praticamente à companhia uns dos outros.

Essa história reflete o isolamento de muita gente no período de quarentena do novo coronavírus, mas também é o relato dos Schurmann, família brasileira que fez diversas expedições de barco pelo mundo. A primeira grande aventura começou em 1984 e durou dez anos, durante os quais a família velejou pelos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico.

A família, que conta ter aprendido muito sobre o convívio em isolamento durante esse tempo a bordo, agora está dividida por causa da Covid-19. David (o filho do meio) e Heloísa (a mãe) estão na casa de David em São Paulo com o filho dele, Kian, de 11 anos. Pierre (o filho mais velho) mora em Salvador com a esposa e os filhos mais novos, um casal de gêmeos. No mar estão Vilfredo (o pai) e Wilhelm (o filho mais novo) com a mulher, Erika. No início de 2020, Heloísa pretendia embarcar com os três para uma viagem às Ilhas Falkland — Malvinas, onde eles estão agora. Com o aumento no número de casos da doença, achou mais seguro ficar com o filho em terra.

David e Heloísa toparam contar ao TAB o que aprenderam sobre convívio, solidão, medo e privacidade nesses anos passados no mar.

FAMÍLIA DIVIDIDA

Heloísa: Pois é, [estamos] morrendo de saudade. O barco, a nossa casa, está lá longe, perto da Antártica, nas Falkland Malvinas. Estamos tranquilos, porque lá não houve nenhuma morte por Covid-19. E eles estão ancorados em lugares que são fazendas de carneiros, lugares completamente desertos, onde não há nenhum ser humano, só pinguim, foca, leão-marinho.

David: Eles estão no melhor lugar para a quarentena, vou te falar. Uma paisagem bonita, pode sair para andar... No barco tem a vantagem que você tem o horizonte, você pode nadar se estiver num lugar quente, consegue ter essa liberdade. A vantagem de estar aqui [em terra] é que você pode pedir uma entrega de supermercado, tem acesso aos recursos de que precisa, e aqui balança um pouco menos (risos), que é melhor para trabalhar e fazer outras coisas. Mas, se você fosse perguntar onde eu queria estar, é no barco. 100%.

Wilhelm, Erika e Vilfredo Schurmann em quarentena a bordo - Família Schurmann/Acervo pessoal
Wilhelm, Erika e Vilfredo Schurmann em quarentena a bordo
Imagem: Família Schurmann/Acervo pessoal

UNIÃO E HIERARQUIA

Heloísa: Nós fizemos um isolamento grande quando atravessamos o Oceano Pacífico. Foram 30 dias. E aí nós sentamos com as crianças — Vilfredo, eu e os três meninos — e falamos: olha, vai ser uma experiência nova para vocês e para nós também. Lógico que a gente teve que aprender a conviver o dia a dia com muita paciência. Eu dava aula para os meninos, o Vilfredo estava ali fazendo a navegação, manutenção, e eles ajudavam em todas as tarefas. Eles [os filhos] sempre foram tripulantes, mas ali precisava muito mais que a gente dividisse as tarefas, e os horários tinham que ser cumpridos. Esse isolamento, que foi o primeiro que passamos com a família, serviu como uma lição muito grande, porque a gente foi aprendendo a criar uma solidariedade, um ajudando o outro, e também uma resiliência. Depois a gente aprendeu que pode ficar isolado, juntos em família, sem se matar (risos).

David: Sair de uma casa que tinha cento e poucos metros quadrados, um quintal grande, lá em Florianópolis, para viver num barco de 44 metros quadrados sem poder sair a qualquer hora foi o que mais me marcou. Os meus pais entenderam a paciência que precisariam para lidar com as crianças, e acho que eles foram muito inteligentes, porque saíram do pedestal de "pai todo-poderoso". Quando você está jogado dentro de uma situação como a que estamos hoje, você tem que mudar a dinâmica. Não quer dizer que há uma falta de respeito pelos pais. Mas meus pais nos levaram a sentir que estávamos ali fazendo parte de algo, de uma tripulação.

PRIVACIDADE E CONVIVÊNCIA

Heloísa: Os momentos importantes para nós eram justamente esses em que você quer ficar sozinho. Eu ia para a minha cabine, para a minha cama, botava um fone de ouvido, ficava escutando na época um K7, me isolava. Ou ia para frente do barco, achava um espaço. O Vilfredo gostava também de ficar lá atrás no canto dele. O principal é que a outra pessoa, o outro tripulante, marido, mulher, o que for, que está ali naquele grupo, respeite aquele momento.

David: Tem outra coisa muito interessante sobre o convívio em conjunto, e hoje na vida adulta eu vejo como nós somos condicionados a isso. Nós sabemos aquilo que irrita as pessoas com quem nós convivemos. Eu sempre falo que são os botões. A gente sabe quais botões apertar para irritar a pessoa. Quando a gente fica em confinamento muito tempo, a gente tende a querer apertar mais esses botões para ver a reação. Nesse momento você tem que botar um vidro na frente desses botões e não ser tentado a apertar. Não é hora de ter DR quando você está num momento desse. É ter consciência disso: por que eu tô falando assim agora? E pedir para a outra pessoa um desconto, um tempo para ficar sozinho. Hoje na nossa família a gente conhece tão bem os botões uns dos outros que uma pequena nuance na voz, um pequeno olhar e a gente já provoca (risos).

David e Heloísa Schurmann dão entrevista ao TAB por Skype - UOL
David e Heloísa Schurmann dão entrevista ao TAB por Skype
Imagem: UOL

CONVÍVIO SEM ANSIEDADE

David: Tem uma coisa muito importante em explicar o porquê [aos filhos]. Nós estamos assim porque tem esse vírus e [explicar] por que todo mundo tem que ajudar [em casa]. Eu tenho certeza que vão ter muitos filhos, casais, enfim, dinâmicas familiares, que vão olhar para esse tempo com toda a dificuldade que ele tem, mas com um grande valor de ter passado esse tempo juntos. Parece meio utópico de nessa desgraça pensar na coisa boa, mas principalmente as crianças vão lembrar muito — passei um mês, dois meses com meus pais. Está na hora de engajar e realmente e trocar ideia.

Heloísa: Quando a gente mudou para o barco, eu tive que reprogramar a minha cabeça de que eu não iria ser simplesmente a mãe ali junto com eles. Eu ia ter que ser a mãe, a professora, a enfermeira, o que fosse que eles precisassem de mim. E ao mesmo tempo eu creio que busquei, lá no fundo do meu coração, uma paciência que achei que não tinha. Meu apelido é Formiga, meu filho mais velho Pierre me chamou de Formiga Atômica (risos). E de repente eu tive que fechar mais essa minha ansiedade.

COM MEDO, SEM PÂNICO

David: Se você deixa, a ansiedade vira um pânico e desestrutura tudo. É ter consciência e botar em perspectiva. Assim como uma boa parte da população não está entendendo que é um boeing 747 [de pessoas] que está morrendo por dia, muita gente também não entende que vai passar. Eu lembro muito a primeira tempestade que nós pegamos no barco, eu era moleque, pequeno — o raio, a onda, o barco mexendo, o vento uivando, e eu falava assim: "Nossa, o que está acontecendo, a gente vai morrer?" E meus pais vinham — você via que eles estavam estressados — mas eles vinham passar a segurança, falando: "Vamos passar dessa, está difícil, mas vamos passar". Quando passa, cria uma resiliência, você sabe que tem uma saída. Uma coisa que nosso pai sempre fala e que acho muito sábio é que todos nós temos que ter medo. Nós não somos super-heróis que não têm medo de nada. Nós realmente temos apreensões, temos medo. O que não pode virar é pânico.

David Schurmann trabalha em casa enquanto o filho Kian estuda - Família Schurmann/Acervo pessoal
David Schurmann trabalha em casa enquanto o filho Kian estuda
Imagem: Família Schurmann/Acervo pessoal

VIAGEM X CONVIVÊNCIA

David: O isolamento é obviamente parecido. E o fato de que todo mundo tem uma função dentro de casa. Aqui a gente já fez a tabelinha do que cada um faz [de tarefa doméstica]. O que mudou foi a relação com meu filho, eu não tinha um convívio 24h por dia com ele. Estou tendo a experiência que meus pais tiveram, então para mim isso é completamente novo. Eu fui o filho, agora estou sendo o pai nessa situação. É fácil replicar, o que deu certo lá [no barco], faço aqui.

Heloísa: A gente também cria oásis. Na hora da refeição é proibido celular, o vírus é proibido. A gente cria um oásis gostoso de falar, eu conto histórias da minha infância. No barco, nós tínhamos uma hora de exercício a bordo, de lazer. Sempre foi sagrado. A gente fazia exercícios, dançava, fazia ioga, o que fosse, mas aproveitava também para se divertir. Era sagrado assistir ao pôr do sol, contar histórias, escutar música, conversar, rir. E eu vou falar uma coisa para você também: a gente foi adquirindo habilidades que não sabia que tinha. Quando você está navegando, passa por milhares de ilhas, você não encontra ninguém para cortar o cabelo, a não ser aquele cara que põe um coco e corta em volta. Aí eu tive que aprender. E esta semana foi o David, que foi com a maquininha e cortou meu cabelo (risos). Você vai e você faz.

Heloísa Schurmann se exercita na casa do filho David, onde está passando a quarentena - Família Schurmann/Acervo pessoal
Heloísa Schurmann se exercita na casa do filho David, onde está passando a quarentena
Imagem: Família Schurmann/Acervo pessoal

ESPERANÇA E SOLIDARIEDADE

HeloÍsa: A gente está acostumado a ver os horizontes. Meu horizonte estreitou muito. Mas, para mim, o que tem me conduzido para continuar e ter meu entusiasmo de vida é que eu gosto de fazer exercício, eu gosto de dançar, então faço os exercícios, zumba, também medito, que é um momento em que abaixo minha ansiedade. Também tenho a oportunidade de estar com o David e com o Kian ao mesmo tempo, então estou curtindo muito o meu neto. Estou com saudade do meu horizonte e do balanço [do mar]. Mas estou consciente de que esse momento é um momento de amor, não só por mim, mas de amor ao próximo. Ao ficar em casa, estou fazendo um ato de amor ao próximo. Isso para mim é fundamental.

David: Espero que essa seja uma centelha que acenda e pegue um fogo enorme na cabeça das pessoas para elas despertarem, realmente entenderem que o propósito de vida não é simplesmente ganhar todo o dinheiro do mundo, ter todos os luxos do mundo. Hoje, estão entendendo que o luxo é a vida, é estar com as pessoas. A gente despertou para isso em alguns momentos das nossas vidas, primeiro de conhecer o planeta, segundo quando a Kat veio morar conosco, que foi minha irmã, que era soropositivo, a partida dela... Entender que a vida realmente é frágil, que realmente é finita. Tudo isso nos dá humanidade. Acho que o ser humano está começando a despertar.