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Filósofo analisa como a irracionalidade se manifesta na pandemia

Justin E. H. Smith, autor de "Irrationality: A History of the Dark Side of Reason" - Justin E. H. Smith/Arquivo pessoal
Justin E. H. Smith, autor de "Irrationality: A History of the Dark Side of Reason" Imagem: Justin E. H. Smith/Arquivo pessoal

Luiza Pollo

Colaboração para o TAB

07/06/2020 04h00

Racionalidade e irracionalidade convivem em um equilíbrio delicado e, não raro, uma se transforma na outra sem nem ao menos percebermos. Por isso, fica complicado definir exatamente o que cada uma é, em si.

Se você achou isso tudo uma viagem filosófica, é por aí mesmo. Em poucas palavras, essa é a ideia geral do livro "Irrationality: A History of the Dark Side of Reason" (Irracionalidade: Uma história do lado escuro da razão, em tradução livre, sem edição em português), escrito por Justin E. H. Smith, professor de História e Filosofia da Ciência na Paris VII (Universidade de Paris Diderot).

O livro é de 2019, mas vai ganhar uma nova edição em paperback (brochura) em julho deste ano, e levou o pesquisador a escrever um prefácio que contempla a pandemia do novo coronavírus — cenário que ele vem vivendo bem de perto em Nova York, onde está desde o ano passado em sabático para um curso. Aliás, tão de perto que Smith teve sintomas leves de Covid-19 há algumas semanas. Apesar de não ter conseguido um teste, ele afirma que está bem e já se recuperou totalmente.

O professor conversou com o TAB sobre como o livro ajuda a marcar a transição do "velho mundo" para o que quer que venha pela frente.

TAB: É um livro complicado de resumir, mas qual você diria que é a sua tese em "Irrationality"?

Justin E. H. Smith: Este é um momento bem oportuno para falar disso, porque eu acabei de entregar o prefácio para a nova edição em paperback, que sai em julho. E o propósito do prefácio é atualizar o livro, levando em conta os novos acontecimentos que mudaram o mundo. Escrevi uma tentativa de resumir como este trabalho — eu não quero dizer prevê, mas ao menos antecipa ou conversa — com o momento presente. É como se o livro estivesse na divisão do fim de uma era histórica e dando sinais e dicas para a próxima.

Como livro, ele não é uma argumentação, mas sim um ensaio. Este formato mostra, com diversos exemplos, o que podemos ver como um movimento dialético entre racionalidade e irracionalidade em diversas escolas de pensamento, mas também na psicologia humana e na sociedade. E o argumento — até o ponto em que existe um — é que há um equilíbrio delicado entre os dois. Em termos de políticas sociais ou em termos da estruturação da vida e da psique de qualquer um, é um equilíbrio delicado, pois é fácil cruzar para o oposto. Algo que em determinado momento histórico é um caminho racional, pode se tornar irracional.

TAB: Quais seriam alguns exemplos de irracionalidade?

JEHS: Não é possível definir o que é racionalidade, irracionalidade e a diferença entre eles. Se você quiser pegar algo mais concreto para definir a irracionalidade, eu diria que é a rejeição do interesse próprio da maneira que os teóricos das escolhas racionais o definem. As pessoas tendem a rejeitar o interesse individual próprio em circunstâncias onde elas se misturam ou dissolvem no coletivo de alguma maneira. Isso acontece, por exemplo, em shows de rock, cultos religiosos ou manifestações políticas. Para trazer para o momento atual, acontece em manifestações políticas nas quais as pessoas desafiam ordens de usar máscaras.

TAB: No Brasil, vemos vários exemplos desse tipo recentemente. Você acredita que a irracionalidade vem também de figuras públicas, nas quais, em tese, devemos confiar para tomar decisões?

JEHS: Muda de um país para o outro. O que eu acho, a partir do que eu sei do Brasil no momento atual, é que há paralelos interessantes com os Estados Unidos. O que vemos nos Estados Unidos é uma estratégia curiosa — e, mais uma vez, isso pode ser um bom exemplo de algo que é irracional em um nível e racional em outro — é a pergunta profunda que estamos fazendo há quatro anos: se Donald Trump tem uma estratégia mais profunda ou não. Eu não sei (risos). Mas, tendo ou não, a manifestação social irracional da abordagem dos nossos regimes à pandemia é precisamente passar mensagens desencontradas de um jeito que parece quase intencional. Por exemplo, no mesmo dia em que Trump tuíta irritado para o governador de Nova York por querer reabrir a cidade, ele tuíta irritado com o governador do Michigan, que quer manter o estado em isolamento. Qual dos dois o líder do nosso país acha que adotou a estratégia adequada? Ele não parece ter nenhuma opinião fixa, vai e volta entre uma coisa e seu oposto, de uma forma que parece característica de regimes populistas, em que o objetivo é manter as pessoas suficientemente confusas sobre as fontes de autoridade. Em um nível mais profundo, daria para dizer que comprometer-se com um regime que faça esse tipo de coisa é necessariamente um comprometimento irracional.

TAB: Você estava escrevendo um livro sobre a internet agora, certo? Qual o papel dela na dualidade entre racionalidade e irracionalidade?

JEHS: Obviamente a internet tem se revelado, nos últimos 4 ou 5 anos, um fracasso como experimento. Ela fracassou em entregar a promessa de nos fornecer um espaço público legítimo para a busca da democracia deliberativa — no sentido que [o filósofo e sociólogo alemão] Habermas define. É absolutamente claro, agora, que ela não vai fazer isso, por vários motivos. Um deles é que ela foi sustentada por corporações com interesse no lucro, e não com o interesse social como motivação. Ainda assim, eu acho que as pessoas que comandavam essas corporações e seus mágicos da tecnologia, quem eles empregavam, genuinamente achavam que estavam provendo uma ferramenta igualitária na busca de deliberação de uma forma nobre. Mas eles simplesmente não entendiam o quanto isso seria difícil. Essa é um pouco da história inicial.

Agora, nós temos um tipo de perversão do ideal de deliberação, em que os usuários não entendem os algoritmos — e não podem entender. Eles são escondidos de nós. Temos algoritmos que estão em clara oposição à deliberação, em vez de trazer as pessoas a algum tipo de reconciliação. Levando isso em conta, nós vemos que mostrar os dois lados de um conflito nem sempre leva a uma resolução racional. Às vezes, só exacerba o conflito. É por isso que, agora, alguns de nós estamos percebendo que é nosso dever cívico evitar dar nossa opinião em redes sociais, porque o simples fato de fazê-lo significa que você é engolido por todo esse problema.

TAB: E como isso acontece no contexto do coronavírus?

JEHS: O coronavírus muda o formato do que eu queria escrever antes desta crise começar. O título que sugeri ao meu editor, acho que em novembro, era "Against the Algorithm" (Contra o algoritmo, em tradução livre). Mas um efeito da pandemia foi suavizar o meu entendimento do lugar que a internet, pelo menos a princípio, pode ocupar na vida humana. E talvez um dia, sob circunstâncias diferentes, funcionar como uma força humanizadora. Então estou mudando minha abordagem do livro, agora que estamos em circunstâncias diferentes.

Não consigo, nas circunstâncias atuais, ver a internet como algo além de uma força que está mantendo o tecido da comunidade humana unido. (...) Eu olho para a nova vanguarda de forças voluntárias do tipo "Lave Suas Mãos" no Twitter, e, apesar de eu ainda conseguir enxergar aquele tom que costumava me irritar tanto, agora eu sorrio e penso: "Que bom pra eles. Que bom para a Dra. Briana Ph.D., e para todos os seus leais seguidores.
Justin E. H. Smith, em texto para a revista The Point

TAB: De que formas a pandemia mudou suas percepções de "Irrationality" ou as sustentou?

JEHS: Uma das coisas mais interessantes é que, em março ou abril, parte da resistência mais feroz aos lockdowns estava vindo das igrejas, sinagogas, mesquitas e templos hindus. E nós estávamos ouvindo os mesmos tipos de histórias dos líderes religiosos em templos hindus na Índia, igrejas ortodoxas em Tbilissi (capital da Geórgia), sinagogas aqui mesmo no Brooklyn e igrejas evangélicas na América do Sul. Eles estavam se comportando exatamente do mesmo jeito. E tem um caso memorável sobre o qual eu escrevo no prefácio, sobre um pastor de uma mega igreja na Louisiana, que foi multado pelo estado por violar a ordem de fechamento. Primeiro, ele disse que não acreditava nessas histórias do governo, que era uma conspiração. Aí vários de seus paroquianos ficaram doentes e as pessoas disseram: 'olha, é algo real'. Mas aí a abordagem dele — eu achei isso fascinante — foi de dizer: 'alguns de nós conseguimos entender o que é preferir a morte. Isto é, aqueles entre nós que têm a chama da fé' — ele não usou essas palavras —, 'que estão vivendo em um modo existencial diferente, no qual toda a estratégia de vocês para manterem-se vivos pelo maior tempo possível é fútil e parece não compreender o motivo das nossas vidas'. E eu achei fascinante essa transição — de um negacionismo teimoso ao reconhecimento de que de fato [o vírus] existe, mas, ao mesmo tempo, abraçando totalmente uma forma de vida que rejeita o cálculo utilitário. Isso é uma coisa sobre a qual eu já falava no livro, mas que o momento histórico atual me deu exemplos muito mais vívidos.