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O que thrillers nos ensinam sobre convivência em meio ao isolamento social

Amy Adams em "A mulher na janela" (2020) - Divulgação
Amy Adams em "A mulher na janela" (2020)
Imagem: Divulgação

Caio Delcolli

Colaboração para o TAB

25/06/2020 04h00

Sem sair de casa há meses, Anna passa horas bebendo vinho e assistindo a clássicos de suspense do cinema norte-americano. Com o tédio na cabeça e uma câmera fotográfica à mão, Anna bisbilhota pela janela os vizinhos do bairro em que mora, como o personagem de James Stewart em "Janela Indiscreta" (1954), no filme de Alfred Hitchcock. A rotina se altera quando Anna testemunha um assassinato no vizinho — e suspeita que o autor do crime seja o homem para quem ela alugou um quarto no subsolo da casa.

Anna, protagonista do romance "A mulher na janela", de A. J. Finn, sofre de pânico quando tenta sair de casa. O livro, adaptado aos cinemas mas ainda sem data de estreia, é um dos mais bem-sucedidos thrillers psicológicos dos últimos anos, subgênero que há décadas cativa audiências na literatura, na TV e no cinema. Além dele, "Garota Exemplar", de Gillian Flynn, e "A garota no trem", de Paula Hawkins, são suspenses que migraram fácil das páginas para as telas.

Em crítica de "A mulher na janela" na revista New Yorker, a escritora Joyce Carol Oates defendeu que o subgênero com protagonistas femininas "está vivendo um momento" e oferece uma "parábola triunfante" do movimento #MeToo: "a de que mulheres com falhas, menosprezadas, desacreditadas, mal entendidas e subestimadas" têm testemunhos rejeitados — mas que depois, "revelam-se corretos".

Estrutura de suspense

"Em geral, mas nem sempre, o thriller doméstico envolve pessoas que o protagonista conhece", explica Jane K. Cleland, escritora de mistérios e professora de escrita criativa, em entrevista ao TAB. "Essas histórias sempre são populares porque nós podemos nos colocar no lugar dos personagens. Eles lutam contra todos os obstáculos para preservar e proteger o que é muito importante para a vida de cada um de nós: nossas casas, famílias, tudo e qualquer coisa que valorizamos."

Cleland é autora de "Mastering Plot Twists" ("dominando viradas de trama", em livre tradução para português) e "Mastering Suspense, Structure & Plot" ("dominando suspense, estrutura e trama"), publicados em 2018 e 2016, respectivamente, pela Writer's Digest Books. Do ponto de vista técnico, "A mulher na janela" e similares não são necessariamente thrillers domésticos, mas são divulgados com esse rótulo para facilitar a busca por eles nas prateleiras de livrarias e por estarem na zona de interesse dos leitores habituais de suspense, mistério e policiais.

Ernie Hudson e Rebecca de Mornay em "A mão que balança o berço" (1992) - Divulgação - Divulgação
Ernie Hudson e Rebecca de Mornay em "A mão que balança o berço" (1992)
Imagem: Divulgação

A escritora australiana Lisa Clifford, em artigo publicado no site The Art of Writing, acredita que o subgênero não é composto de "thrillers tradicionais que envolvem crime, assassinato, espionagem, aventura ou mistérios de detetive". "O thriller doméstico se passa em um ambiente que te faz pensar que aquilo poderia acontecer a você. As histórias acontecem dentro de casas, da família e da vida conjugal."

Nosso fascínio por essas narrativas não vem de hoje. Entre o fim dos anos 1980 e início dos 1990, por exemplo, Hollywood produziu vários sucessos com personagens lidando com o sinistro dentro de casa, como "Mulher solteira procura" e A mão que balança o berço", ambos lançados em 1992, e "Atração Fatal" (1987). Recentemente, a série "Você" — adaptada da série literária homônima de Caroline Kepnes — tornou-se um hit da Netflix, e é centrada em um rapaz obcecado pelas mulheres por quem se apaixona.

Segundo a psicanalista e doutora em literatura Maria Homem, são situações de convivência em que o lado obscuro das pessoas (que não compõem o "eu" idealizado) se revela — um mecanismo narrativo que permite uma leitura freudiana.

Ela menciona um famoso ensaio de Sigmund Freud, "Das Unheimliche" (traduzido para português com os títulos "O Infamiliar", "O Inquietante" e "O Estranho"), de 1919, em que o psicanalista austríaco usa o conto de fantasia "O Homem de Areia", de E.T.A. Hoffmann, para elucidar a tese do "sinistro vagamente familiar" na literatura, que tem potencial de despertar nos leitores a angústia e o terror.

"É como se aquilo que a gente visse no espelho fosse muito assustador. É uma projeção de nossos aspectos mais ocultos e, eventualmente, mais assustadores, malignos, recalcados — e reprimidos", explica. "Desejos proibidos, pulsões tanto eróticas quanto mortíferas que, nas fricções, vêm à tona. Nas relações, a gente se revela e o outro se revela para a gente, como se víssemos no outro uma representação do que recalcamos em nós mesmos."

Glenn Close e Michael Douglas em "Atração Fatal" (1987) - Divulgação - Divulgação
Glenn Close e Michael Douglas em "Atração Fatal" (1987)
Imagem: Divulgação

No ensaio que hoje é uma das mais relevantes peças dos estudos literários — em especial na fantasia —, Freud discorre que o tal do estranho não é novo ou alheio, mas familiar e enraizado na mente humana. Ele permeia as relações em geral e está reprimido, em nome da manutenção de convenções sociais.

Maria Homem observa que os autores de thrillers domésticos costumam criar suspense a partir de personagens que deixam o estranho entrar em casa, o que ilustra um jogo entre consciente e inconsciente. O que não foi resolvido será finalmente explorado.

Coexistência, medo e pandemia

Em meio à quarentena imposta pela pandemia de Covid-19, a micropolítica das relações humanas domésticas é incontornável. "É um cenário perfeito para a estrutura do thriller", observa a psicanalista.

Quem suja e quem limpa? Quem fala a verdade e quem mente? São acordos implícitos e explícitos que norteiam ou passaram a nortear as relações. Embora a gente a chame de "distanciamento social", a medida nos aproximou dentro de casa e intensificou a convivência — aqui, o véu também foi levantado. E na política da porta de casa para fora, também.

Segundo Maria Homem, a expansão global do populismo de extrema-direita revela que estamos "quebrando pactos sociais e civilizatórios mínimos", e as formas de debate e comunicação precisam ser reconstruídas, pois estão em xeque. Mesmo agora, no meio da pandemia, seguimos no caminho da opressão e da destruição.

"A democracia no mundo era um grande conto de ninar. Hoje, você tem na Nova Zelândia advogado para defender os direitos da água do rio contra o Estado que polui e, nos Estados Unidos, policial branco com a mão no bolso sufocando um negro."

Ao mesmo tempo, ela diz, estamos rompendo com a estrutura arcaica de concentração de força política no dinheiro, reconfigurando as relações sociais. "A pandemia mostra que o planeta, feliz ou infelizmente, é um só. Precisamos dar um jeito de conviver nele."