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O que há por trás da onda de cancelamento dos contos de fada?

Capanha do projeto "Conta Pra Mim", veiculada pelo MEC - Reprodução/ Youtube
Capanha do projeto "Conta Pra Mim", veiculada pelo MEC Imagem: Reprodução/ Youtube

Heloísa Noronha

Colaboração para o TAB

30/09/2020 04h01

Desde que, no último dia 19, a revista literária Quatro Cinco Um postou em sua página na internet uma crítica sobre a coleção "Conta pra Mim", escritores, ilustradores, artistas envolvidos com a infância e educadores de todo o Brasil estão em polvorosa nas redes sociais.

Trata-se de uma ação conduzida pela Sealf (Secretaria de Alfabetização) ligada ao MEC (Ministério da Educação), que recentemente disponibilizou 40 livros infantis em formato digital para ler, imprimir e pintar, além de vídeos com cantigas e fábulas. Entre opiniões sobre os critérios na escolha dos profissionais do projeto e a respeito da sua qualidade técnica, textos de contos de fadas da série são os que têm sido alvo de avaliações negativas. Seu conteúdo reflete os esforços de um movimento que vem acontecendo há algum tempo, não só no Brasil, que visa tirar dessas narrativas partes "inapropriadas e polêmicas" — ou seja, interpretadas como violentas e sexualizadas.

Nas versões de "Conta pra Mim", não há beijos para selar o encontro de amor entre príncipes e princesas. O lobo mau não é morto pelo caçador em "Chapeuzinho Vermelho"; apenas tropeça e cai em um rio. A figura da madrasta que convence o pai de João e Maria a deixá-los morrer de fome na floresta é substituída por uma boa mãe, que os instrui a marcar o caminho com pedrinhas antes de saírem para colher flores. E em "O Flautista de Hamelin", o sumiço de 130 meninos e meninas encantados pelo som da flauta é omitido — aliás, sequer há crianças no enredo.

A extinção ou a modificação das passagens tidas como incômodas é, de acordo com o psicanalista Mário Corso, "um elogio à ignorância". "Vivemos uma onda obscurantista calcada em opiniões de quem não entende e tampouco estuda o desenvolvimento da criança. Os contos de fadas trabalham com elementos simbólicos profundos, não têm um raciocínio linear. E patrulhar o imaginário não vai acabar com a violência do mundo real", argumenta ele que, em parceria com a mulher, a também psicanalista Diana Lichtenstein Corso, assina "Fadas no Divã - Psicanálise nas Histórias Infantis" (Ed. Artmed).

Para Ilan Brenman, mestre e doutor em Educação pela USP (Universidade de São Paulo) e autor de sucesso entre os pequenos com "Até as princesas soltam pum" (Ed. Brinque-Book), apoiar-se na perspectiva do chamado politicamente correto para tentar "salvar" as crianças de emoções e fatos inerentes à vida é o meio mais rápido para fragilizá-las. "Superproteger do mundo causa o efeito contrário. Os índices de crianças deprimidas e ansiosas e de suicídios entre jovens nunca foram tão altos. Devemos fortalecer os sensíveis e não enfraquecer a literatura", fala.

Higienização literária

De fato, os primórdios do contos de fadas têm uma trajetória bem mais erotizada e sanguinolenta do que as versões que conhecemos hoje -- e que foram ainda mais açucaradas por Walt Disney (1901-1965), um fã do gênero. Só para se ter uma ideia: durante seu sono de cem anos, Bela Adormecida foi estuprada e deu à luz gêmeos, as irmãs de Cinderela cortam dedos e calcanhares para tentar, em vão, calçar o sapatinho de cristal; a madrasta de Branca de Neve dança até a morte calçando sapatos de ferro em brasa; a própria mãe de João e Maria envia os filhos para a floresta sombria e Chapeuzinho Vermelho se delicia com o sangue e a carne da avó sem saber de que se trata.

É válido ressaltar que os contos originais se destinavam ao público adulto e consistiam num entretenimento democrático -- que divertia os nobres nos salões e camponeses e outros serviçais que se reuniam à noite para ouvir e contar histórias depois de um dia de labuta. Por esse motivo, temas como sexo, canibalismo e vingança eram comuns.

À medida que o conceito de literatura infantojuvenil foi se ampliando, alguns assuntos foram tirados de cena e, a maldade de certos personagens, amenizada.

Resultado de séculos de tradição oral, os contos de fadas começaram a ganhar importância com o trabalho do francês Charles Perrault (1628-1703), que colocou no papel histórias tradicionais como "O Barba Azul" e "O Gato de Botas", com um viés um tanto moralizante, principalmente em relação à conduta das mulheres.

No século seguinte, empenhados em resgatar a autêntica língua alemã, os irmãos Jacob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859) compilaram diversas narrativas a partir de conversas com contadoras de histórias. O êxito de sua coletânea — com clássicos como "Branca de Neve e os Sete Anões" e "O Príncipe Sapo" — firmou as bases para a criação da literatura infantil. Guiados pelos ideais cristãos vigentes na época e pelas críticas de intelectuais sobre a crueldade de certos contos, os Irmãos Grimm retiraram da segunda edição os episódios mais violentos e maldosos.

O dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875) é outro escritor emblemático, que criou "Os Sapatinhos Vermelhos", "A Pequena Vendedora de Fósforos" e "O Patinho Feio". Neles, colocou elementos da própria vida como a sensação de abandono e inadequação. Algumas histórias recontadas por Andersen também tiveram alterações ao longo dos séculos — é o caso do destino da protagonista de "A Pequena Sereia" que, ao contrário do final feliz da Ariel da Disney, se suicida após perder a voz e o príncipe.

Ferramentas psíquicas

Segundo Ana Lúcia Merege, pesquisadora da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, e autora de "Os Contos de Fadas: Origens, História e Permanência no Mundo Moderno" (Ed. Claridade), essas histórias refletem a sociedade e a moral de cada época, mas são atemporais porque contêm conteúdos permanentes. "São enredos que faziam sentido para os nossos antepassados e continuam a fazer para nós, pois os aspectos da psique humana continuam a ser os mesmos", diz.

Não é à toa que vários psicólogos já se debruçaram sobre o tema e esmiuçaram suas camadas de simbologia. É o caso do austríaco Bruno Bettelheim (1903-1990), autor de "A Psicanálise dos Contos de Fadas" (Ed. Paz & Terra), e do norte-americano Sheldon Cashdan, que assinou "The Witch Must Die: The Hidden Meaning of Fairy Tales" (em tradução livre, "A Bruxa Deve Morrer: O Significado Oculto dos Contos de Fadas"). Com linhas de análise diferentes, ambos chegaram à mesma conclusão: os contos abordam psicodramas da infância, espelhando lutas reais, e ajudam as crianças a lidar com os conflitos internos durante o processo de crescimento.

De acordo com Deborah Moss, neuropsicóloga especialista em comportamento infantil e mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela USP, o grande trunfo dos contos de fadas é fazer com que as crianças projetem, inconscientemente, partes delas mesmas em vários personagens. "Com sua linguagem acessível, essas histórias mobilizam os sentimentos de uma forma muito natural. É uma maneira de a criança notar o ciúme ou a raiva fora dela e, ao mesmo tempo, se identificar", explica.

Denise Guilherme, docente da pós-gradução "Livros e Jovens: Teoria, Mediação e Crítica" do Instituto Vera Cruz, em São Paulo, conta que é comum associarmos a imagem da infância ao ideal de pureza, segurança, satisfação e felicidade constantes.

"Todos nós, desde que nascemos, temos contradições e sentimentos bons e ruins. Os contos de fadas retratam a condição humana e permitem que as crianças lidem com emoções complexas de uma maneira muito simples. Crianças que têm irmãos, por exemplo, em algum momento viverão uma situação de ciúme ou rivalidade", observa. "Ao ler ou ouvir que as irmãs malvadas da Cinderela recebem um castigo, a emoção negativa se resolve em lugar simbólico e seguro. Isso porque os pequenos não entendem os contos de fadas de maneira literal", diz ela, curadora na A Taba, empresa especializada em curadoria de livros infantis e juvenis.

Medo do próprio medo

No ponto de vista de Cristiane Rogerio, especialista em literatura infantojuvenil e coordenadora pedagógica de A Casa Tombada, na capital paulista, pais que, a exemplo do que vem ocorrendo no Reino Unido, editam as partes cruéis das narrativas ao lê-las para os filhos o fazem porque, na verdade, são eles que sentem medo.

"Muitos não dão conta das perguntas das crianças sobre morte, tortura, sofrimento. Só que as dores estão aí, basta ver o exemplo das consequências do novo coronavírus. As crianças estão isoladas em casa, sem ver amigos e parentes, com medo de perder os pais ou de nunca mais voltar à escola. Negar que lidem com a angústia através do simbólico é extremamente danoso", argumenta.

No recém-lançado "Somos Todos Censores?", o crítico canadense Perry Nodelman argumenta: "Permanecer inocente, isso é, não tentar fazer o mal, requer o conhecimento do que é o mal. É o conhecimento que protege a inocência: só aqueles armados com o conhecimento do mal e o hábito de refletir sobre as implicações práticas e éticas de seu próprio comportamento ou do comportamento alheio é que dispõem dos meios para serem bons. E tenho a certeza de que isso inclui principalmente as crianças."

Para Dolores Prades, publisher da revista especializada "Emília" e consultora da Bologna Children's Book para América Latina, o medo também se estende à literatura e ao livro, principalmente entre adultos e pais que não cultivam o hábito da leitura. "O livro causa receio e perplexidade por abrir caminhos, possibilidades e convidar a sair da zona de conforto", fala. Nesse sentido, o texto simplista e "limpinho" da coleção do MEC, "Conta pra Mim", funciona muito bem ao evitar debate e controvérsia.

Daisy Carias, produtora de conteúdo do site A Cigarra e A Formiga, concorda que o cancelamento dos contos de fadas reflete muitas fragilidades da sociedade, como a falta de intimidade com a leitura. "Quando se se tem contato com a literatura desde muito cedo, a gente logo aprende que nem tudo é verdade, e que não se pode nem se deve acreditar em tudo. Não adianta transformar histórias incríveis, intrigantes e deliciosas em histórias rasas, bobas e sem graça... Como fazer alguém gostar de ler assim?", indaga.