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A via crúcis em busca de atendimento nas UPAs do Grande Recife

A dona de casa Eliane Sales, 39, na UPA Gregório Lourenço Bezerra, em Olinda  - Marcelo Henrique Andrade/UOL
A dona de casa Eliane Sales, 39, na UPA Gregório Lourenço Bezerra, em Olinda
Imagem: Marcelo Henrique Andrade/UOL

Marcelo Henrique Andrade

Colaboração para o TAB, do Recife

02/06/2021 04h01

Não cabe ninguém. Na porta das UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) do Grande Recife, são os próprios pacientes ou acompanhantes que avisam da demora no atendimento e da impossibilidade de entrar.

O recado é passado de boca em boca na UPA de Nova Descoberta, a única da zona norte do Recife, região populosa rodeada de comunidades. Perto do meio-dia de segunda-feira (24), a calçada estava lotada de pessoas sentindo dores de cabeça e no corpo. Algumas vieram com febre e diarreia.

A maioria que ali esperava apresentava sintomas de covid-19. Acompanhantes aguardavam o retorno de algum parente ou amigo que já tinha conseguido entrar na UPA e não saía.

A demora para ser atendido na rede pública de saúde é corriqueira, mas aquilo era incomum. O motivo: algumas UPAs da cidade e do Grande Recife dão "prioridade a casos graves", após uma triagem que mede pressão e nível de saturação, e mandam para casa quem não chega passando muito mal.

Moradores de outros bairros e até mesmo cidades vizinhas se deslocaram até Nova Descoberta para tentar uma consulta. A estudante de enfermagem Carine Souza, 23, fez essa peregrinação com uma amiga. Saíram cedo de Jaboatão dos Guararapes e percorreram 26 quilômetros até Olinda — por telefone, foram informadas de que a UPA Gregório Lourenço Bezerra estava aberta. Encontraram-na de portas fechadas.

Pacientes e acompanhantes do lado de fora da UPA Nova Descoberta, no Recife - Marcelo Henrique Andrade/UOL - Marcelo Henrique Andrade/UOL
Pacientes e acompanhantes do lado de fora da UPA Nova Descoberta, no Recife
Imagem: Marcelo Henrique Andrade/UOL

Frustradas depois de percorrerem mais 11 quilômetros, desceram do ônibus incrédulas. "Com certeza aqui também não estão atendendo, né?", questionou Carine, quando avistou a quantidade de gente tentando encontrar uma sombra de árvore para fugir do sol forte.

Uma semana antes, Carine havia feito o mesmo périplo, mas dessa vez com o pai, Cléber José de Souza. Antes de conseguir dar entrada em um hospital, o porteiro de 49 anos, obeso, diabético e hipertenso, esteve em quatro UPAs do Grande Recife. Tudo lotado.

No início, Cléber percebeu dor de cabeça, depois febre. Em seguida veio o cansaço e tosse com sangue. Correu procurar ajuda médica. Foram dois dias inteiros em busca de atendimento até que, depois de muitas tentativas, horas de espera e bate-boca na recepção da UPA de Prazeres, em Jaboatão dos Guararapes, a estudante conseguiu que o pai fosse atendido.

Enquanto aguardava notícias dele, Carine viu outras pessoas se desesperarem ou voltarem para casa — alguns, segundo ela, com sinais visíveis de cansaço e piora dos sintomas. Cléber, que apresentava baixo nível de saturação (problemas para respirar), foi direto para a UTI, onde precisou de oxigênio. Passou três dias internado na UPA e em seguida foi transferido para um hospital da região, de onde teve alta nesta quinta-feira (27).

A amiga de Carine, naquela segunda-feira, não conseguiu ser atendida. Voltaram para a casa.

Vigilante como porteiro

A reportagem do TAB seguiu para Olinda, também na Região Metropolitana, onde Carine e a amiga tinham ido mais cedo.

Apesar de não ter tanta gente na calçada, não havia atendimento, e quem informava era o vigilante do local. O plantão estava fechado por causa do alto número de internados. Quem insistia ainda passava pela triagem, fazia a aferição da pressão arterial e só. A enfermeira indicava outra UPA, em Paulista, cidade vizinha, ou algum hospital da região.

A dona de casa Eliane Sales, 39, estava indignada e saiu de lá discutindo com o vigilante. Seu semblante era um misto de revolta, cansaço e mal-estar. Há dois dias não dormia bem, tinha febre e muitas dores no corpo.

Sem conseguir respirar direito, voltou ao local pela terceira vez desde que começou a se sentir mal. Não conseguiu ver a cara do médico em nenhuma das tentativas. Sem disposição e temerosa, Eliane resolveu ir para casa. Ela mora com a mãe idosa em como não tem certeza se contraiu covid-19, tinha que se isolar em um quarto para não ter contato com ninguém, apenas com o marido, que acompanhava a esposa e saiu de lá de braços dados com ela — Eliane precisava se apoiar em alguém para suportar as dores. Desistiu de buscar atendimento. "Vou tentar melhorar em casa."

O professor Nilton Brasil, em frente à UPA Gregório Lourenço Bezerra, em Olinda - Marcelo Henrique Andrade/UOL - Marcelo Henrique Andrade/UOL
O professor Nilton Brasil, em frente à UPA Gregório Lourenço Bezerra, em Olinda
Imagem: Marcelo Henrique Andrade/UOL

Em frente à UPA Gregório Lourenço Bezerra há bancos debaixo de uma tenda para diminuir o cansaço de quem espera do lado de fora. Mas, entre os que estavam ali, a fadiga era resultado da quantidade de vezes que já tinham procurado atendimento, sem sucesso.

O professor Nilton Brasil, 44, dobrava a insistência. Ele conversava em voz alta com os que aguardavam atendimento, e fazia vídeos em frente à UPA narrando o que estava acontecendo.

Reclamava bastante e pedia respostas urgentes das autoridades de saúde de Pernambuco. Com mãos e pés inchados, conta que já havia tentado cinco vezes passar com um médico, desde a semana anterior. Encontrou plantão fechado todas as vezes, de manhã cedo e à noite, na esperança de o plantão abrir.

Ele chegou a buscar atendimento na UPA de Paulista, mas só conseguiu passar pela triagem e ouvir da assistente social que ali não havia disponibilidade. Enquanto conversava com o TAB, mostrava os vídeos narrando a peregrinação — como não havia conseguido atestado médico, passou todo o tempo de convalescença trabalhando em sala de aula, numa escola da rede privada.

Para reduzir as dores, passou a tomar prednisolona (anti-inflamatório) à revelia. "Estou fazendo algo muito errado: me automedicando porque não consegui ser visto por um médico", desabafou. Nilton desconfiava que era dengue, por causa das manchas pelo corpo e das dores nas articulações. Até a publicação desta reportagem, Nilton havia sido internado na UTI, ainda sem diagnóstico.

As UPAs não estão fazendo exames para detecção de covid-19 em pacientes ambulatoriais — pelo menos é o que anunciam os cartazes afixados na porta de vidro na UPA da Caxangá, uma das mais movimentadas do Recife, onde o TAB também esteve.

A restrição ocorre quando Pernambuco registra 91% de ocupação de leitos na rede pública. Os dados foram atualizados pela Secretaria Estadual de Saúde nesta sexta-feira (27). Agora, são 473.326 infectados e 15.657 mortes devido à doença.

A secretaria de Saúde de Pernambuco explicou, por meio de nota, que os 15 serviços estaduais estão funcionando normalmente, sem restrições de horário, e que eles não recusam atendimento aos usuários.

A nota confirma que as UPAs priorizam os casos graves, utilizando o sistema de classificação de risco. Pacientes passam por uma avaliação da gravidade. Em alguns casos, quando são considerados não graves, ele é orientado a procurar um serviço de saúde de baixa complexidade.