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'Dono das mil vozes', Orlando Drummond já soltou um frango dentro do cinema

O ator e dublador Orlando Drummond, morto na última terça-feira (27) Imagem: Arte/UOL

Valmir Moratelli

Colaboração para o TAB, do Rio

01/08/2021 04h01

Ao tentar dormir após um exaustivo dia de trabalho como contrarregra da Rádio Tupi, Orlando Drummond foi perturbado pelo miado insistente de gatos na porta de uma leiteria colada a seu prédio, no bairro do Méier, subúrbio carioca.

Foi até a janela com um balde d'água, na tentativa de espantá-los. Percebeu naquele momento que os gatos se agitavam pela presença de um ladrão. Drummond imitou um cachorro e, para sua surpresa, espantou os gatos e o meliante.

Vinte anos depois, ao fazer um teste para dublar o famoso Scooby-Doo, repetiu aquele timbre de voz. Ganhou o papel.

O mesmo latido que um dia colocou felinos e assaltante para correr, agora encantaria crianças como voz de um cão medroso. Com Scooby, ele entrou para o "Guinness Book", o livro dos recordes, por dublá-lo por quase quatro décadas.

Ao sair de cena aos 101 anos, Orlando Drummond silencia uma carreira de mais de sete décadas povoando a memória afetiva da televisão brasileira.

Apesar de ficar famoso com o desenho do dogue alemão, a trajetória artística do dublador começou com a imitação de outro animal: um galo.

Vitor Gagliardo, autor da biografia "Orlando Drummond - Versão Brasileira" (ed. Gryphus), conta como ele venceu a seleção disputando a vaga com dez aves no estúdio da extinta Tupi. "O bordão do programa de notícias era: 'Quando o galo canta, o cacique informa'. Tiveram a ideia de levar galos ao estúdio para capturar áudio. Nenhum cantou! Aí alguém lembrou que o Drummond imitava bichos. E para surpresa geral, quando ele começou a imitar, os galos o acompanharam. Só que a imitação dele ficou melhor do que o áudio original. E ele ficou como dublador oficial da rádio", conta Gagliardo.

Uma das mais icônicas vozes do entretenimento brasileiro, o centenário Drummond marcou gerações ao interpretar o afetadíssimo Seu Peru, da "Escolinha do Professor Raimundo"; e ao dublar personagens como Alf, o ETeimoso, da homônima série norte-americana; o vilão Gargamel no desenho "Os Smurfs"; além de Scooby-Doo, Popeye, Vingador, de "A Caverna do Dragão"; o Gato Guerreiro em "He-Man" e, mais recentemente, o Doutor Urso Marrom na febre infantil "Peppa Pig". No cinema, foi a voz do temido Imperador Palpatine, o vilão de "O Retorno de Jedi" (1997), que compõe a saga "Star Wars".

Os atores Marcos Caruso e Orlando Drummond, em cena numa gravação da 'Escolinha do Professor Raimundo' Imagem: Reprodução / Internet

A origem do Seu Peru

Drummond iniciou como contrarregra na Tupi, em 1942, vendo de perto nomes já consagrados como os radialistas Oduvaldo Cozzi e Abelardo Barbosa (o Chacrinha). Ali começou a entender as potencialidades mágicas da voz. Também atuou em filmes como "Rei do Movimento" (1954) e "Angu de Caroço" (1955). Se como dublador, dono de uma infinitude de timbres de voz, conseguiu deixar sua marca em diferentes produções artísticas, foi um convite do humorista Chico Anysio que mudaria de vez sua trajetória na TV.

Adaptada da Rádio Mayrink Veiga, a "Escolinha do Professor Raimundo" estava prestes a estrear na TV Globo, em 1990, quando o ator que interpretaria Seu Peru, nome nunca revelado, deu para trás. Recusou assinar contrato com medo de pôr a reputação máscula à prova. Chico então chamou o amigo que conhecia dos tempos de rádio.

Pediu que vestisse roupa rosa-choque, fizesse gestos espalhafatosos e levasse a mão suavemente ao queixo para falar o bordão criado por Chico: "Estou porraqui". Nascia o Seu Peru. Foi um sucesso imediato. Depois ele próprio se sentiu à vontade para criar outras frases de conotação sexual, como "use-me e abuse-me, teacher", "Peru com mel de Vila Isabel" e "Peru é cultura, cheio de ternura".

É certo afirmar, também, que Seu Peru foi um marco na estereotipagem do gay como sujeito afeminado na televisão, tão recorrente no humor daqueles tempos. Por outro lado, ainda hoje, é praticamente inexistente a abordagem da temática sexual entre idosos homossexuais, um tabu que, de alguma forma, Seu Peru trouxe para os lares brasileiros.

É como se fosse proibido representar idosos sexualmente ativos, menos ainda gays. O pesquisador Roberto Ramos, da UFBA (Universidade Federal da Bahia), em "Tá rindo do quê? Análise dos estereótipos do remake da Escolinha do Professor Raimundo", analisa que Seu Peru, ao reforçar a orientação sexual, transmite, em suas respostas, o debate sobre gênero e sexualidade. "Ele sempre queria realçar o poder de se dizer gay, encorajar muitos outros e mostrar como a diversidade sexual é sempre bem-vinda."

Na versão mais recente da Escolinha, Seu Peru é vivido por Marcos Caruso. Em 2019, os roteiristas fizeram uma dupla homenagem — ao Drummond e ao Caruso. Propuseram um encontro surpresa dos atores no estúdio. Caruso conta que não acreditou. "Quando entrei, na carteira onde eu deveria estar, estava seu Orlando Drummond. Não sei o que aconteceu na minha cabeça, dei o texto e comecei a contracenar com ele!".

A cena memorável foi criação da equipe de Leonardo Lanna, redator-final do humorístico. Foi uma operação de guerra esconder a ideia do elenco. "Seu" Orlando chegou cedo, foi caracterizado, ficou num camarim separado. "Imagina como é difícil guardar um segredo desse numa produção que envolve tanta gente. Colocamos ele sentadinho na cadeira e o elenco entrou, aí todo mundo enlouqueceu! Caruso tinha recebido um texto-fantasma (roteiro falso), só sabia que teria um sósia do Seu Peru para contracenar. Ele ficou sem reação, demorou pra processar. Foi lindo demais", conta Lanna, a respeito da última homenagem a Drummond, revisitando o carismático personagem, duas décadas depois.

A diretora Cininha de Paula se emociona ao falar do ator. "Eu era uma diretora iniciante, e lembro que ele me respeitava como se eu fosse importante. Sabendo do respeito que meu tio Chico tinha por ele, ainda bem que pudemos homenageá-lo em vida, agora nesta nova 'Escolinha'".

Orlando Drummond, aos 101 anos, e os netos, Felipe, Alexandre e Eduardo, respectivamente Imagem: Reprodução/Instagram

Vida em família

Drummond era casado desde 1951 com Glória, que conheceu nos bastidores de um programa de rádio de Pedro Anísio. Tiveram dois filhos, Orlando Júnior e Lenita Helena; cinco netos, Marco Aurélio, Michel Filho, Felipe, Alexandre e Eduardo; e dois bisnetos, Miguel e Mariah. Além do sobrenome igual ao do avô, Felipe, Alexandre e Eduardo levam adiante o legado da dublagem com a Casa Drummond, que reúne um casting de mais de trezentas vozes.

Em sua vasta trajetória, Drummond presenciou as transformações da indústria do entretenimento no Brasil. De um país agrário que se animava nas ondas do rádio para a televisão que se acomodava nos centros urbanos, até chegar à rapidez das redes sociais. Sua conta no Instagram tem quase 150 mil seguidores e é administrada pelos netos.

Uma das últimas fotos foi um #tbt lembrando sua ida ao Maracanã, ao lado da mulher e do neto Alexandre, para assistir a um jogo do time do coração, o Fluminense. Também fez questão de registrar quando tomou a primeira dose da vacina contra a covid-19, em fevereiro. "Ele gostava quando líamos mensagens dos admiradores e queria, sempre que possível, responder a todos", conta o filho Orlando Cardoso.

Logo após se despedir pela última vez do pai, na última quarta-feira (29), Cardoso conversou com TAB. Bastante emocionado, disse que o diálogo era preponderante em casa. "Jamais deu uma palmada sequer em mim ou na minha irmã. Homem de diálogo, ele conquistou o respeito dos filhos sem sequer alterar o tom da voz", recorda.

O dublador adorava dizer o nome do bairro em que nascera e foi criado: "Todos os Santos, graças a Deus!'". Foi moleque levado, peladeiro-zagueiro, remador e lutou boxe, mas se destacou mesmo no humor.

Além de fazer rir com imitações implacáveis, Drummond era um gozador dos amigos. Apaixonado por filmes de terror, certa vez se apavorou numa sessão de cinema na zona sul. "Ele morreu de medo com a cena de um ritual religioso que sacrificava um frango. Daí voltou no dia seguinte, para revidar o susto. Entrou escondido com uma galinha e, na hora da tal cena, jogou o bicho pro alto. Foi um deus-nos-acuda, todo mundo saiu correndo pelos corredores escuros. A sessão foi suspensa", relembra Gagliardo.

A atriz Claudia Mauro, a primeira Capitu da "Escolinha", também reforça o lado extrovertido do artista. "Orlando era amigo do meu tio-avô, o radialista José Mauro. Quando trabalhamos juntos, ele tinha uns 70 e eu 20. Apesar da nossa diferença de idade, conversávamos com tanta afinidade que parecíamos dois jovenzinhos no set", diz.

Personalidades lamentam morte do ator e dublador Orlando Drummond Imagem: Reprodução/Twitter Felipe Neto

Novas gerações

O ator Jorge Lucas, que hoje se destaca como um dos mais requisitados dubladores brasileiros, teve Drummond como principal motivador na carreira. Conheceu o "Dru", como carinhosamente o chamava, na extinta VTI-Rio (estúdio de dublagens), em 1992. Na dublagem de um longa-metragem, o ator veterano percebeu seu nervosismo de estreante.

"Dru, com toda sua experiência, me deu toques precisos de como devia cortar as sílabas, acelerar a fala, fazer pausas... Era gentil em passar conhecimento aos novatos", relembra Lucas, que dá voz a personagens de Vin Diesel, RuPaul, Johnny Depp, Jamie Foxx, Matt Damon, entre outros nomes de Hollywood.

Os atores Jorge Lucas e Orlando Drummond, no bloco Diversão Brasileira, durante o Carnaval carioca de 2018 Imagem: Jorge Lucas/Arquivo Pessoal

Curiosamente, o último encontro dos dois foi no Carnaval de 2018, num bloco de rua, o Diversão Brasileira, na Praça Xavier de Brito, na Tijuca. "Eu estava montado de mulher, de minissaia e mascarado, mas ele logo me reconheceu. Dru estava numa cadeira de rodas, mexeu comigo, demos muita risada", recorda o ator, que aproveitou para registrar o momento com uma selfie.

Drummond, o dono das mil vozes, silenciou na terça-feira (27), após dois meses internado no hospital Quinta D'Or, na zona norte do Rio, para tratar uma infecção urinária. É atribuída ao dramaturgo inglês William Shakespeare a seguinte frase: "A minha consciência tem milhares de vozes / E cada voz traz-me milhares de histórias". São poucos os que têm consigo essas milhares de vozes e de histórias. Orlando Drummond foi um deles.

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