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Testamos um tanque de privação sensorial para saber o que é 'sentir nada'

Jernej Graj/Unsplash
Imagem: Jernej Graj/Unsplash

Luiza Pollo

Da agência Eder Content, colaboração para o TAB

15/01/2020 04h00

Segunda-feira, 11h30 da manhã. No meio de um dia com a agenda cheia — entrevistas, texto para escrever, passar no mercado —, deixei a correria de lado e parei por uma hora para entrar em uma cápsula escura cheia de água quentinha, boiar e relaxar.

A cápsula de flutuação tem mais ou menos o tamanho de um carro e fica dentro de uma sala de luz baixa, chuveiro e algumas pedras (para energizar o ambiente, para quem é da mística?). Coloquei maiô e protetores de ouvido, tomei uma ducha para não levar nenhuma sujeira para dentro da água e entrei no tanque, que, com 1kg de sal de Epsom para cada litro de água, faz flutuar sem nenhum esforço.

O ambiente é totalmente escuro, os protetores de ouvido e a água isolam o barulho, a temperatura da água (quase a mesma do corpo) te faz esquecer que está parcialmente submerso e o cheiro não é estimulante — não há nenhum perfume além do cheirinho leve de sal e limpeza. A ideia era experimentar a privação de sentidos e entender o que ela pode causar.

De meditação e apps de mindfulness a flutuação e massagem, as opções para relaxar e se livrar dos estímulos constantes são um mercado crescente. Estima-se que o bem-estar vai movimentar quase US$ 180 bilhões no ano que vem só nos Estados Unidos, onde há pesquisas mais estabelecidas.

Segundo levantamento da Organização Mundial da Saúde, o Brasil é o país mais ansioso do mundo: 9,3% da população foram diagnosticados com transtornos de ansiedade. Compreensível que esse mercado encontre espaço para crescer por aqui também.

"Nas grandes metrópoles, onde o estresse é grande, isso faz todo o sentido", disse Philip Pastor Wagner, um dos sócios do Flutuar Float Center, que nos convidou para testar a flutuação. "São Paulo é uma cidade super estressada, e parece que, quando o nível de loucura vai aumentando, a quantidade de serviços de bem-estar vai acompanhando." Wagner diz que os negócios vão bem nesse um ano e meio de atividade: em expansão, o Flutuar vai dobrar o número de salas de flutuação (de três para seis) em 2020.

Boiando no quentinho

Nos primeiros dez minutos no tanque, tocava uma música relaxante e fui aconselhada a deixar as luzes no modo cromoterapia. Com a iluminação mudando de cor aos poucos, me habituei ao ambiente e às posições mais confortáveis para relaxar. Percebi diversas vezes que estava com o corpo tenso, fazendo esforço desnecessário para boiar como numa piscina normal, e precisava me soltar conscientemente até perceber que boiava sem dificuldade.

Tanque de flutuação - Creative Commons - Creative Commons
Tanque de flutuação
Imagem: Creative Commons

A música parou de tocar, e a partir daí desliguei a luz. Começariam ali os 45 minutos mais esperados, o tempo no qual eu deveria me concentrar em desapegar dos sentidos. Mas esse era o problema: eu estava focada demais em me concentrar e esquecer completamente onde estava. Aconteceu, por dois breves momentos, mas não foi fácil. Wagner me disse que, depois de algumas sessões, você fica mais habituado ao espaço e consegue desligar mais rápido.

Na maior parte do tempo, fiquei pensando sobre como descreveria a sensação no TAB. Em outros momentos, vinham à cabeça problemas pessoais e lembranças que tomavam formas parecidas com sonhos. E tudo bem. Segundo Wagner, muitos dos clientes marcam sessões para flutuar exatamente quando precisam focar em resolver algum problema específico, porque conseguem se concentrar melhor sem as distrações comuns do dia a dia. "Nessa uma hora em que você consegue desconectar de tudo, às vezes você tem insights sobre algum tipo de problema em que está pensando, e você consegue achar soluções", afirma.

Dentro da cápsula, perdi a noção do tempo completamente. Não sabia dizer se faltavam 10, 20 ou 40 minutos para acabar a sessão, e tomei consciência de que estava ansiosa para aproveitar melhor meu tempo ali. De repente, ouvi novamente a música tocar: um aviso de que eu tinha mais cinco minutos e deveria começar a me preparar para sair. Liguei as luzes de cromoterapia e comecei a me acostumar à ideia de que teria que voltar à realidade em breve.

É difícil dizer se atingi o estado de privação dos sentidos, mas é inegável que essa uma hora sem estímulos externos e sem nenhum esforço físico me fez bem. Senti como se tivesse recebido uma massagem e estava bem mais tranquila depois da sessão. Sequer usei o lado esquerdo da escada rolante para subir mais rápido na estação de metrô — hábito que tenho desde que vim morar em São Paulo, há quatro anos.

Meditação na água

A flutuação de 60 minutos custa de R$ 150 a R$ 200. Mas há opções para atingir um estado de isolamento mental parecido usando outras técnicas, sem gastar dinheiro. É mais fácil desligar quando você está literalmente isolado do mundo dentro de um tanque, mas também é possível acalmar os pensamentos e desconectar apenas dentro da própria mente.

A meditação é uma das possibilidades. "Não existe uma definição exata de meditação, mas é um processo que envolve atenção, relaxamento físico e relaxamento da lógica, mantendo os focos de atenção junto com a respiração e evitando o devaneio. Ela é auto-induzida, diferente da hipnose, por exemplo, e geralmente tem uma técnica preestabelecida", explica Elisa Kozasa, cientista do Instituto do Cérebro do Hospital Israelita Albert Einstein, fellow do Mind and Life Institute e praticante da meditação.

Atingir um estado de atenção relaxada, ou seja, sem precisar ativar diversas áreas do cérebro que ajudam no foco, exige treino. E não raro, na nossa sociedade que valoriza o desempenho, o objetivo é liberar a cabeça para conseguir ter insights e melhor performance no trabalho.

Jejum de dopamina

Enquanto a meditação e a flutuação são técnicas bem estabelecidas e estudadas cientificamente, há uma nova prática de bem-estar — difundida principalmente no Vale do Silício — que vem causando bastante polêmica: o jejum de dopamina.

Batizada por Cameron Sepah, professor-assistente de psiquiatria na Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), a técnica tem como objetivo diminuir maus hábitos ativados por uma descarga de dopamina no cérebro — pode ser olhar o Instagram a cada 5 minutos, comer impulsivamente em momentos de estresse, ou outros comportamentos ruins.

O pesquisador diz se arrepender do nome que deu à técnica. Depois de muita crítica, ele está avisando que o objetivo é mudar comportamentos impulsivos reforçados por dopamina, e não controlar a quantidade do neurotransmissor no cérebro.

No entanto, muita gente levou a coisa ao pé da letra e está se privando de qualquer comportamento prazeroso. Tem quem passe um dia inteiro sem mexer no celular, sem ouvir música, evitando ao máximo o contato com outras pessoas, e até sem comer. O objetivo é não sentir nada por algum tempo e, depois disso, supostamente sentir prazer com mais intensidade. Esse comportamento foi descrito em uma reportagem recente da New York Times Magazine, que mostra como alguns "tech bros" do Vale do Silício estão aplicando (e deturpando) o jejum de dopamina no dia a dia.

"É uma leitura simplista achar que é só a dopamina que vai causar esse efeito", afirma Gisele Sampaio, neurologista e pesquisadora da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein. "Todo o sistema de recompensa é complexo, envolve várias áreas anatômicas e vários neurotransmissores. Incluindo a dopamina, a serotonina e a noradrenalina, por exemplo."

Cientificamente, a ideia é "dar um tempo" para esses neurotransmissores, com o objetivo de reduzir a dose necessária deles para se sentir bem. Gisele alerta que entre a promessa e o resultado há um intervalo grande. Há medicamentos que reduzem os níveis de dopamina no cérebro, e que portanto, se a prática tivesse lógica, eles seriam mais eficazes do que se privar de prazer. Mas que fique claro: não há comprovação de que isso funcione, e reduzir os níveis do neurotransmissor pode ter efeitos graves, como problemas nos movimentos do corpo. A doença de Parkinson, por exemplo, é causada por uma diminuição intensa na produção da substância, afetando os movimentos, lembra a neurologista.

Portanto, a deturpação do jejum de dopamina não faz muito sentido, mas sua ideia inicial — se afastar de comportamentos compulsivos que te façam mal — pode sim ser benéfica. "Acho importante hoje em dia, com o excesso de estímulos, que a pessoa tenha uma prática que faça com que ela reduza o nível de excitação e de estimulação. Pode ser o tanque de flutuação, pode ser a meditação, ou até mesmo contemplar a natureza. É bom sair da cidade, ir à praia, desenvolver um olhar contemplativo", aconselha a cientista Elisa Kozasa.