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Herança nerd: crianças crescem idolatrando super-heróis graças aos pais

Giovani Zardini, a esposa e seu filho de 3 meses, durante a CCXP 2019 - Kaluan Bernardo/UOL
Giovani Zardini, a esposa e seu filho de 3 meses, durante a CCXP 2019 Imagem: Kaluan Bernardo/UOL

Kaluan Bernardo

Do TAB

23/02/2020 04h00

O pastor Giovani Zardini, de 30 anos, passeia com a esposa e o filho pela CCXP, um dos maiores eventos geeks do mundo e que acontece anualmente no Brasil. O pequeno, de apenas três meses, está todo vestido com roupas do Batman e, embora ainda mal saiba falar ou andar, já vê um enorme desfile de super-heróis e vilões passeando pelos corredores do São Paulo Expo. Quando chegar em casa, encontrará bonecos, filmes e gibis com os mesmos mocinhos e bandidos. Será que o garoto herdará a cultura nerd da mesma forma que um filho é incentivado a torcer pelo mesmo time de futebol do pai?

Pelos corredores lotados de atrações de marcas, lojas de quadrinhos e atores famosos de seriados e filmes, há diversas outras famílias — fantasiadas ou não — com os pais se deliciando com aquele mundo de fantasia, tanto quanto seus pequenos. As filas para tirar fotos em estandes que imitam cenários famosos da cultura pop igualam crianças e adultos, enquanto pequenas estatuetas de heróis — que um desavisado poderia achar que são apenas bonecos para brincar — custam centenas de reais. Brinquedo de gente grande.

Embora os heróis como Batman e Homem-Aranha tenham sido criados há mais de cinquenta anos, a cultura geek alçou novos patamares de popularidade mais recentemente, fazendo com que milhares de pais e filhos aproveitem eventos temáticos. Só a edição de 2019 da CCXP vendeu 280 mil ingressos, movimentando em torno de R$ 265 milhões.

"Eu lia Turma da Mônica com meus pais, mas agora é diferente. Vejo os pais consumindo a cultura com os filhos com um interesse muito mais alinhado. É uma oportunidade muito bacana de estarmos nas mesmas páginas, gostando das mesmas coisas", diz Zardini. Ele conta que, com menos de um mês de vida, seu filho vestia roupas do Yoda bebê (personagem de "Star Wars") que a avó costurou. Antes de falar ou andar, seus olhos já viajam por referências de uma galáxia muito, muito distante.

"Esse é um fenômeno que tem a ver com a memória pela mídia e que, como qualquer memória, é transmitida também por gerações. Uma família que gosta de novela ou futebol vai assistir a esses programas com seus filhos", diz Monica Rebecca Ferrari Nunes, professora e pesquisadora em comunicação, consumo e memória na ESPM.

A pesquisadora, que desenvolveu diversos trabalhos acompanhando jovens cosplays, acredita, no entanto, que não necessariamente as referências são para a vida toda. "As crianças vão criar vínculos com tais memórias, até que um dia vão ter contato com outras estruturas, como as da escola e de amigos, que vão gerar conflitos e tensões com os hábitos que desenvolveram com os pais", diz.

O casal Simone Viana e Emanuel Cristiano com o filho de 7 anos - Kaluan Bernardo/UOL
O casal Simone Viana e Emanuel Cristiano com o filho de 7 anos
Imagem: Kaluan Bernardo/UOL

Filhos acompanharem os pais (e vice-versa) em seus gostos culturais não é algo inédito nem exclusivo dos nerds, mas nesse caso o fenômeno é ampliado — afinal, quem lia Batman com os pais na década de 1980 não costumava sair e ver todos os heróis com capa e tudo na rua. "Vestir filhos e levar a eventos é mais impactante, porque se vestir como o personagem e usar os adereços é uma dimensão mais ampla e se manifesta de um jeito que dá mais visibilidade", diz Nunes.

Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades

A frase acima, dita por Ben Parker, tio do Homem-Aranha, é um dos exemplos mais célebres de educação familiar passada pela cultura geek. Ela ilustra como, conscientes de seu público-alvo, criadores de super-heróis tentaram passar valores que consideravam éticos em suas histórias. Muitos desses princípios eram transmitidos pelas famílias dos personagens.

Não por menos, os autores estadunidenses Stephen H. Segal e Dudycz Lupescu escreveram o livro "Geek Parenting" (Parentalidade geek, em tradução livre), que analisa as relações de pais e filhos na cultura pop — desde os mais problemáticos, como os Lannister de "Game of Thrones", até os mais protetores, como Sarah Connor, de "Exterminador do Futuro". "Histórias de fantasia e ficção científica são muito boas para falarmos com nossas crianças sobre o mundo. Elas tendem a abordar grandes perguntas sobre a vida e o universo, como 'o que é certo e errado?', 'por que estamos aqui?', 'quem vamos encontrar?' e 'como é o sucesso?", diz Segal em entrevista.

A psicóloga Bruna Louise, de 32 anos, compartilha a crença. "Essas obras são boas para observar integridade, trabalho em equipe, como lidar com conflitos morais etc", diz. Ela afirma não se preocupar com a eventual violência típica dos super-heróis. "O mundo já é violento por si só. O importante é conversar com nossos filhos para eles identificarem o melhor nessas obras", comenta.

Para Nunes, no entanto, embora exista uma influência clara da cultura geek na criação das crianças, seu poder é limitado. "Não podemos tornar essas práticas como definidoras. É uma prática lúdica, de entretenimento, ligada à sociedade de consumo, mas que não vai tornar aquelas pessoas mais consumistas ou com os valores da obra. Essas questões são da sociedade como um todo. Eu não acredito que isso seja determinante, que a pessoa não vai ter crítica", afirma.

A enfermeira Taina Bernardo, de 21 anos, andava com sua sogra Maria do Carmo (47), a filha, de 7, e a sua cunhada, de 9. As duas crianças estavam vestidas de Arlequina, vilã do universo de Batman, normalmente retratada como a psiquiatra que enlouqueceu ao se apaixonar pelo Coringa. Para Bernardo, "à medida que as meninas crescem, super-heróis e super-vilões ocupam o espaço de princesas da Disney".

Maria do Carmo, a nora Taina Bernardo, sua neta e sua filha, na CCXP 2019 - Kaluan Bernardo/UOL
Maria do Carmo, a nora Taina Bernardo, sua neta e sua filha, na CCXP 2019
Imagem: Kaluan Bernardo/UOL

Apesar de também considerar que as obras possam ser uma bússola moral para as crianças, ela não vê como problema elas se vestirem como uma vilã (e que em filmes como "Esquadrão Suicida" seja apresentada de forma sensual). "Elas entendem que a vida é diferente do filme e não enxergam maldade na personagem ou na roupa", comenta. "Para as crianças, o que está em jogo é apenas a brincadeira. É claro que é preciso dar atenção a isso, mas não é algo determinante, é um fenômeno de transitoriedade", diz Nunes.

Seja como for, a cultura geek tem o poder de unir pais e filhos em torno de um mesmo objeto. A secretária Simone Viana, 47 anos, e o advogado Emanuel Cristiano, 38, andavam com um pequeno Homem-Aranha, seu filho de 7 anos. Cristiano sempre frequentou eventos do tipo, mas sua esposa começou a acompanhá-lo apenas depois que o filho nasceu e o pai começou a levá-lo também. "Os eventos, filmes, séries e quadrinhos contagiam. Comecei a consumir tudo isso depois", diz ela. "Agora nosso filho está indo na onda. A gente assiste aos desenhos junto, mas com vontade de ver mesmo. Acontece uma união fantástica, não tem divisão. Todos querem ver as mesmas coisas", diz ele.

"A cultura geek pode unir pais e filhos, assim como o futebol ou qualquer outro gosto em comum. Promove socialização, encontro, cultura e afetividade. É uma ótima oportunidade", diz Nunes.

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