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Em 1969, Vinicius de Moraes foi 'aposentado' do Itamaraty por 'boemia'

André Bernardo

Colaboração para o TAB

09/07/2020 04h00

Na edição do dia 12 de abril de 1953, o jornalista Samuel Wainer, dono do jornal Última Hora, estreou uma nova coluna no semanário "Flan: Abra o seu Coração", um "consultório sentimental" escrito por uma obscura colunista chamada Helenice.

Todas as semanas, Helenice respondia às cartas, tirava dúvidas e distribuía conselhos para seus leitores. Mas, quem, afinal, estaria por trás da misteriosa coluna?

A alguns quarteirões dali, o diplomata Vinicius de Moraes, então com 39 anos, dava expediente no Itamaraty. Certo dia, o contínuo da Última Hora entregou a ele uma caixa abarrotada de cartas. Na mesa ao lado, o diplomata Affonso Arinos de Mello Franco (1930-2020) estranhou a cena e perguntou, intrigado: "Vinicius, essas cartas são para você?". Meio sem jeito, o colega respondeu: 'Não, Afonsinho, são para a Helenice". E, logo em seguida, desvendou o mistério: "Esse monte de cartas se deve ao fato de ela ter anunciado uma receita infalível contra a queda de cabelo".

Alguém já disse que Vinicius era plural até no nome. "Um ser numeroso", brincava o cronista mineiro Fernando Sabino (1923-2004). Além de poeta, escritor, jornalista, cantor e compositor, Vinicius era também diplomata. Ele ingressou no Itamaraty em 1943, aos 30 anos, por sugestão do amigo e chanceler Oswaldo Aranha (1894-1960). Da primeira vez que prestou o concurso, em 1942, não passou. Levava os livros e apostilas para a praia de Ipanema, e estudava até o anoitecer. No ano seguinte, tentou de novo. Dessa vez, chegou a ter aulas de português com o filólogo Antônio Houaiss (1915-1999), que tinha um cursinho preparatório no Centro do Rio. Foi aprovado. "Opta pela diplomacia menos por vocação, e mais para tentar organizar suas finanças", afirma o jornalista José Castello, autor de "Vinicius de Moraes - O Poeta da Paixão" (1994).

Em julho de 1946, Vinicius assumia o posto de vice-cônsul em Los Angeles, onde permaneceu por cinco anos. Já naquela época, sentia calafrios só de pensar em colocar os pés em um avião. O medo de voar começou em fevereiro de 1945, quando sonhou que perdia todos os amigos em um desastre aéreo. Sua aversão deu origem a uma de suas tiradas mais famosas: "Avião é mais pesado que o ar, tem motor a explosão e foi inventado por brasileiro. Não pode funcionar".

Um poeta entre o jazz e o cinema

Em Hollywood, Vinicius reencontrou uma velha amiga, a atriz e cantora Carmen Miranda (1909-1955), que conhecera no extinto Cassino da Urca, no Rio. Casado com a jornalista Beatriz Azevedo de Mello Moraes, a Tati, a primeira de suas nove mulheres, e pai de Susana e de Pedro, de seis e quatro anos, respectivamente, Vinicius e a família passaram a frequentar sua casa em Beverly Hills, na Califórnia. Foi na piscina da mansão da "Pequena Notável" que Pedro e Susana deram suas primeiras braçadas.

"Eu era completamente apaixonada por ela, porque, além de ser um amor de pessoa, muito generosa e alegre, gostava de crianças e, como não tinha filhos, me deixava entrar em seu armário", recorda a cineasta Susana Moraes (1940-2015), a primogênita de Vinícius, no livro "O Cinema da Retomada" (2002), organizado por Lúcia Nagib. "Ela tinha um closet enorme, com as roupas todas arrumadinhas: os vestidos e os sapatos na parte inferior e, na superior, os turbantes. Aquilo para mim era 'Alice no País das Maravilhas'."

Ainda em Los Angeles, Vinícius conheceu e faz amizade com o desenhista Walt Disney (1901-1966), viu um show do cantor e trompetista Louis Armstrong (1901-1971) e, a convite do próprio diretor, Orson Welles (1915-1985), acompanhou as filmagens de "A Dama de Xangai" (1948), estrelado por Rita Hayworth.

Vinicius de Moraes, com seu livro de nome "Antologia Poética" - Divulgação - Divulgação
Vinicius de Moraes, com seu livro de nome "Antologia Poética"
Imagem: Divulgação

Dessa época, a empresária, produtora e assessora de imprensa Gilda de Queirós Mattoso, de 67 anos, guarda uma raridade: uma carta de Charles Chaplin. "Um dia, Vinicius escreveu ao Chaplin, confessando sua paixão pelo cinema mudo. E o Chaplin, muito amigavelmente, respondeu", explica sua última esposa, que viveu com Vinícius de 1978 a 1980. "No entanto, os dois não chegaram a se conhecer ou a ficar amigos. É uma pena. O Chaplin não sabe o que perdeu...", brinca.

"O tempo do amor é irrecuperável"

De Los Angeles, Vinícius seguiu para Paris e, mais adiante, para Montevidéu. Na capital francesa, ocupou o posto de segundo secretário, de dezembro de 1953 a novembro de 1957. Um de seus points favoritos era o bar Anglais, no subsolo do Hotel Plaza Athenée, na Avenida Montaigne. Lá, gostava de se reunir com alguns bons amigos, como o pintor carioca Di Cavalcanti (1897-1976), o poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973) e a atriz alemã Marlene Dietrich (1901-1992), para jogar conversa fora e, como diria na letra de "Aquarela" (1983), beber de bem com a vida.

O último posto diplomático de Vinícius foi Montevidéu, onde serviu como cônsul-adjunto, de junho de 1958 a junho de 1960. Em seu último ano na capital uruguaia, a saudade de Lúcia Proença, sua quarta mulher, era tanta que ele resolveu pedir transferência para o Brasil. O Itamaraty recusou. Em um ato de desespero, escreveu: "Preciso de fato voltar para o Rio. Não é um problema material, de dinheiro, ou de status profissional. Tudo isso é recuperável. É um problema de amor, pois o tempo do amor é irrecuperável", argumentou em carta a seus superiores.

Na opinião do poeta e ensaísta Daniel Gil, organizador de "Roteiro Lírico e Sentimental da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde Nasceu, Vive em Trânsito e Morre de Amor O Poeta Vinícius de Moraes" (2018) e outras obras sobre o poeta, a carreira diplomática não chegou a prejudicar a produção literária de Vinicius. "Ele ingressou no Itamaraty, por concurso, em 1943, ano de lançamento de suas 'Cinco Elegias'. Sua saída do cargo se daria em 1969, um ano após a primeira reunião de sua 'Obra Poética'. Vinícius produziu a maior parte de sua melhor poesia ao longo desse período", explica Gil.

O melhor amigo do homem

A carreira como diplomata chegou ao fim em 29 de abril de 1969, quando é aposentado compulsoriamente pelo Ato Institucional nº 5 (AI-5).

Reza a lenda que a ordem teria sido dada pelo próprio presidente Arthur da Costa e Silva (1899-1969), num memorando literalmente curto e grosso endereçado ao chanceler José de Magalhães Pinto (1909-1996): "Demita-se esse vagabundo!".

O então ministro das Relações Exteriores sugeriu transferir Vinícius para o Ministério da Educação e Cultura, mas, nada feito. Costa e Silva estava irredutível. "A exoneração do Itamaraty foi o grande desgosto da vida do Vinicius", garante o pesquisador e musicólogo Ricardo Cravo Albin, autor de "Vinícius de Moraes - Embaixador do Brasil" (2010). "De diplomata relapso ele não tinha nada. Prestou serviços inestimáveis à diplomacia brasileira."

Quando estava no Rio, relata Cravo Albin, Vinicius gostava de visitá-lo, acompanhado de dois ou três amigos, em sua cobertura em Botafogo, zona sul da cidade. Nessas ocasiões, ligava da rua, sempre depois das onze da noite, para avisar: "Ricardo, estou aqui perto. Mas, não se preocupe: o líquido é por minha conta. Prejuízo eu não darei".
Bom de copo, Vinícius é o autor de outra frase memorável: "O melhor amigo do homem é o uísque. O uísque é o cachorro engarrafado". O "cachorro" a que Vinicius se refere é o que aparece no rótulo de sua marca favorita de uísque, o escocês Black & White.

O episódio da demissão de Vinicius é descrito, com pequenas variações, tanto por Castello em "O Poeta da Paixão" (1994) quanto por Ruy Castro em "Chega de Saudade" (1990). "A correspondência chega às suas mãos na casa da irmã Lygia. Ela o pega mergulhado em sua banheira. Fica arrasado, mas não deixa escorrer uma só lágrima", narra Castello. "Ele recebeu a notícia em alto-mar, a bordo da banheira de sua cabine no navio Eugênio C. Chorou convulsivamente, porque adorava o Itamaraty, embora detestasse a burocracia do serviço público", descreve Castro.

"Vinicius foi expulso do Itamaraty não por motivos políticos — embora fosse um homem de esquerda e até, um pouco, militante. Foi expulso por razões de comportamento. Sua figura livre, seu jeito informal, sua extroversão, não combinavam com a postura solene e distante que se espera de um diplomata", avalia o jornalista e escritor José Castello.

Xingamento em idioma nagô

Desolado, Vinicius até pensou em se exilar na Europa, mas decidiu permanecer no Brasil. Dois anos depois de sua cassação, compõe, em parceria com Toquinho, uma canção com título para lá de enigmático: "A Tonga da Mironga do Kabuletê". Afinal, o que significa isso? "A expressão reflete um palavrão daqueles bem feios. Essa canção foi composta em uma época de muita repressão e censura. Dava vontade mesmo de mandar todo mundo para a 'tonga da mironga do kabuletê'. E foi o que fizemos", revela o cantor e compositor Antônio Pecci Filho, o Toquinho, de 73 anos. "Nossa amizade extrapolou a relação profissional. Não se sabia mais quem era o filho, o pai, o neto ou o avô. Em muitos aspectos, Vinicius era muito mais jovem do que eu."

Vinicius morreu em 9 de julho de 1980, aos 66 anos, vítima de edema pulmonar. Em agosto de 2010, mais de 40 anos depois de sua exoneração e 30 de sua morte, foi promovido a embaixador, o mais alto cargo da carreira diplomática. A cerimônia, realizada no Palácio do Itamaraty, em Brasília, contou com a presença de alguns de seus familiares, como a filha Georgiana, de 67 anos, e a neta Mariana, de 50. Em seus últimos anos de vida, Vinicius já não se referia mais à exoneração com raiva ou mágoa. Mas, com seu habitual bom humor, lamentava não ter em mãos o tal despacho que o afastou de suas funções diplomáticas. Se tivesse, dizia, mandaria emoldurar e o penduraria na parede de casa. "Ser chamado de vagabundo pelo Costa e Silva foi o maior elogio que eu poderia ter recebido", conta Gilda, aos risos.