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Fofice fora do lugar: como a fonte Comic Sans virou piada na internet

"Socorro", em Comic Sans - Arquivo pessoal
"Socorro", em Comic Sans Imagem: Arquivo pessoal

Letícia Naísa

Do TAB

26/12/2020 04h01

Um dos momentos mais aguardados de 2020 finalmente chegou em dezembro: o anúncio do Plano Nacional de Imunização (PNI). A vacinação em massa contra a covid-19 é uma das maiores esperanças no enfrentamento à pandemia. A cerimônia de lançamento do PNI aconteceu dia 16 e, elogios e críticas ao plano à parte, um fato capturou a atenção dos usuários das redes sociais: o convite para o evento usava a fonte Comic Sans.

Como a internet não perdoa, a imagem do convite virou piada. No papel timbrado oficial do Governo Federal, letras legíveis e bem curvadas traziam termos que carregam grande significado, como "Ministério da Saúde" e "Vossa Excelência". A escolha do design gerou desde pedidos de impeachment até afirmações de que "a crise é estética" pelo uso da fonte "cafona".

Amada por alguns e odiada por tantos outros, a Comic Sans não fez sua estreia agora na tipografia do Planalto — nem fora dele. Estudantes dos anos 2000 já receberam certificados em Comic Sans e utilizaram a fonte em trabalhos escolares feitos no Microsoft Word. Os cientistas que descobriram o Bóson de Higgs (a "partícula de Deus") a usaram no anúncio da descoberta. Até o Vaticano já se valeu da fonte engraçadinha em homenagem ao Papa Bento 16. O partido conservador do Reino Unido também já fez campanha pelo Brexit em Comic Sans. O ex-advogado de Donald Trump, presidente dos EUA, é fã da fonte e escreveu uma carta em nome de seus clientes em um inquérito.

Por que tanta polêmica? Quem entende do riscado afirma que a fonte é inadequada para o tipo de evento que se anunciou. "Seria como aparecer com roupa de banho na cerimônia", explica Diogo Cortiz, coordenador do curso de design da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). "O mais apropriado seria usar uma fonte que torne a mensagem mais séria. Aquele convite transmitia essa ideia. Estamos no meio de uma pandemia, por isso que virou chacota", diz. A Comic Sans é uma fonte fofa que foi criada para outros propósitos.

Foi feita pra quê? Em 1994, a Microsoft criou um bot parecido com aquele clip de papel que ajudava as pessoas a entenderem como usar o Word, lembra dele? Faz tempo, a gente sabe. Lembrar disso denuncia a sua idade, assim como usar "fds" como abreviação de fim de semana. Bem, o bot, vulgo "Microsoft Bob", servia para guiar o usuário pelo sistema Windows. A fonte usada para conversar com o usuário era a famosa Times New Roman, uma fonte serifada (com risquinhos no fim das hastes das letras) muito usada em publicações impressas. Para os desenvolvedores da Microsoft, a Times New Roman era uma fonte muito séria para um personagem animado. Assim, o designer Vincent Connare criou a Comic Sans. A ideia era dar um ar de leveza para o cachorrinho guia do Windows. A fonte seria usada nos balões de diálogo do personagem. "Cães não conversam em Times New Roman", disse o criador, em entrevista ao jornal britânico The Guardian, em 2017. Fã de quadrinhos, Connare estudou as tipografias das HQs, como "Watchmen" e "O Cavaleiro das Trevas", para desenvolver a fonte mais polêmica da computação. A propósito, ele se orgulha de sua criação. Em sua bio no Twitter, afirma ser o criador da "fonte preferida do mundo".

Como ela ficou popular? A Comic Sans acabou não sendo usada pelo Microsoft Bob. O sistema já estava pronto quando ela foi criada. Restou a ela ser empacotada na cartela de fontes disponíveis do Word, na edição 1995. A partir daí, ganhou o mundo: a virada se deu exatamente na época em que as pessoas passaram a ter computador em casa, e quase sempre o sistema operacional a ser instalado era o Windows. "Todo mundo estava acostumado com fonte serifada, por causa do ambiente impresso, até que surgiu a possibilidade de fazer diferente", diz Cortiz. As pessoas começaram a explorar o sistema e a usar a Comic Sans indiscriminadamente em trabalhos escolares, apresentações, certificados, documentos. "São usuários comuns fazendo uso de uma fonte que estava ali disponível. Ela é uma fonte mais descontraída, mesmo, feita para ser usada no universo infantil, de cartoon."

Fachada da Força Aérea Brasileira de Fortaleza (2013) - Fábio Corrêa - Fábio Corrêa
Fachada da Força Aérea Brasileira de Fortaleza (2013)
Imagem: Fábio Corrêa

Tem problema usar em outro contexto? A questão é que a tipografia faz parte do processo de comunicação, no melhor estilo "o meio é a mensagem". "Ela ajuda a dar um significado para o que está escrito", diz Cortiz. Escolher a fonte adequada é comunicar melhor o que se quer. Se você escolher uma fonte mais leve, como a Comic Sans, passa uma ideia de informalidade; fontes serifadas dão um ar mais sério ao texto. Com o passar dos anos, a linguagem visual foi evoluindo no ambiente digital para que esse tipo de gafe fosse evitado. Na análise de Cortiz, os anos 1990 tinham uma estética bem mais experimental. "Tudo era muito exagerado, as pessoas estavam começando a entender o design." Hoje, a estética predominante é mais minimalista. "A formação em design passou a ser mais valorizada, do ponto de vista da comunicação, além da questão estética, e existe muito mais acesso a conteúdos sobre design", diz Cortiz.

Então a estética é a mensagem? Nos anos 1960, o filósofo Marshall McLuhan cunhou a expressão usada no item acima, "o meio é a mensagem". Em sua teoria, o meio de comunicação tem um papel muito importante na transmissão de um conteúdo. A lógica é muito parecida, no ambiente do design. "A área da comunicação sempre estudou esses movimentos, e essa percepção é ainda anterior à era da internet", afirma Cortiz. A tipografia é um dos pilares da comunicação. Uma fonte com serifa, por exemplo, pode facilitar a leitura. Muitos pesquisadores estudam o impacto da fonte na percepção da leitura. Existem estudos sobre o uso da própria Comic Sans.

E o que eles dizem? Que a fonte pode ser muito útil para quem tem dislexia, por exemplo. Teve quem torceu o nariz quando o Instagram disponibilizou a Comic Sans na função Stories, mas foi por esta razão nobre: facilitar o entendimento de disléxicos. Segundo a Associação Britânica de Dislexia, o espaçamento entre as letras "r" e "n" são importantes para facilitar a leitura. Se postas muito juntas, podem ser confundidas com "m". Letras muito finas e parecidas entre si também causam confusão, como "p" e "q". Além da Comic Sans, Arial e Verdana também podem ajudar disléxicos a compreender melhor um texto. Mas tudo isso depende do grau do transtorno. "Se for um adulto com dislexia grave e que passou a vida inteira sem ter tratamento, a Comic Sans não vai ajudar", diz Gustavo Simi, psicólogo e pesquisador na Associação Brasileira de Dislexia, em entrevista a Tilt.