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Pandemia aumenta repressão sobre a Farra do Boi, mas não impede festa

Edu Cavalcanti/Agência RBS
Imagem: Edu Cavalcanti/Agência RBS

Matheus de Moura

Colaboração para o TAB, de Governador Celso Ramos (SC)

13/04/2021 04h01

São cinco da manhã de um domingo de Páscoa, e o frio desanima os jovens sem agasalho que passam pela rua da Olaria em Governador Celso Ramos, município a cerca de 50 km de Florianópolis.

A rua em questão começa larga como uma boca faminta, e vai afunilando numa estreita laringe encurvada, até chegar num mato, cuja entrada se dá por uma portinha de madeira. De carro ou a pé, mas sempre em grupos de quatro ou mais, jovens chegam à rua, checam se a portinha está aberta, dão meia-volta e seguem pela cidade para depois retornarem ao mesmo ponto de antes.

A cena se repetiu toda madrugada desde a quarta-feira anterior. Esse eterno retorno tem como objetivo descobrir onde vai acontecer a Farra do Boi.

Trata-se de uma celebração pasqualina, trazida ao Brasil pelos imigrantes das ilhas dos Açores no século 18, que consiste em soltar um ou mais bois no meio de uma aglomeração, para que assim todos possam correr atrás do bicho e, noutros momentos, fugir dele, numa brincadeira que pode durar pouco minutos ou muitas horas, a depender de quantos animais são soltos. Embora tenha ligação incógnita com o catolicismo, a prática — assim como qualquer tauromaquia (jogo ou brincadeira com touro) — é proibida pela Igreja desde 1567 e considerada crime no país, desde 1998.

A ilegalidade assusta os farristas, como são chamados os participantes, mas não os imobiliza. O atrito com as autoridades aumenta a emoção da brincadeira. Os participantes cortam a região norte-noroeste da cidade em caravanas de três a oito carros — brancos — procurando pela farra nos poucos pontos em que ela normalmente ocorre. A polícia vê a cena, mas não faz nada; dirigir em grupo não foi criminalizado (ainda).

Farra do Boi em Governador Celso Ramos (SC) - Divulgação - Divulgação
Farra do Boi em Governador Celso Ramos (SC)
Imagem: Divulgação

Na calada da noite

No começo da madrugada, as informações são confusas. Cada grupo recebe, por WhatsApp, uma dica diferente sobre onde a festa vai rolar. Os disseminadores de informações costumam ser as mesmas pessoas que compraram o boi, normalmente homens com mais de 40 anos. José* veio do Ceará há mais de 30 anos, e desde o primeiro ano em Governador participa da farra. Tornou-se um empresário bem-sucedido, com dinheiro para fazer colaborações gordas à compra do boi.

"A gente comprou dois bois. Um deles custa R$ 12 mil e o outro custa R$ 10 mil. Vamos soltar um de cada vez", explicou, perto das 6h, quando caminhava pela rua da Olaria. Ele esbravejava ao telefone que um boi deveria ser solto às 6h30 e o outro às 7h30. O primeiro estava programado para a rua Elpídio Alves do Nascimento, enquanto o segundo seria deixado depois da portinha de madeira do fim da rua da Olaria, para que a brincadeira iniciasse no mato e se desenvolvesse para o meio da rua.

Um carro branco atravessou a avenida em alta velocidade, passando pela simplória e pouco arborizada praça Seis de Novembro, onde adolescentes costumam matar o tempo. O veículo pegou a esquerda numa discreta bifurcação, chegando à Elpídio Alves do Nascimento. Encostados em carros e muretas, cerca de 100 jovens entornavam canecos com misturas de vodca com energético e refrigerante enquanto fumavam cigarros normais e de maconha, quando não um Gudang.

O megafunk estoura o silêncio típico daquele horário em que apenas pescadores costumam sair de casa, mas, nesses dias de farra, até os trabalhadores do mar abdicam da labuta para se embrenhar nas brincadeiras. Um senhor de barriga inchada e cabelo rente à orelha avisa alguns participantes que determinados lugares não são muito seguros para se esconder do boi — que pode atacar impiedosamente. Assim como os jovens, ele carrega cachaça no hálito.

Quinze minutos, e nada do boi.

As pessoas se dispersam, retornam aos carros e às motos. Um a um, deixam a rua de calçadas estreitas e casas baixas, em estilo açoriano empobrecido. Alguns voltam à Olaria, outros vão para a praia de Palmas, a mais famosa da cidade, e, os mais bem informados seguem para o restaurante Mar à Vista, um casarão amarelo perdido no meio do nada, onde o mato define o horizonte.

Na Olaria, um senhor mais velho diz: "Não vai ter nada aqui". Todo mundo ali presente dá meia-volta e retorna, na direção de onde veio. Um último rapaz avisa antes de sair: "Acharam o caminhão, tão seguindo!" Boatos dão conta de que vinha da região de Palmas. O caminhão roda a cidade sem parar, esperando o momento certo para despejar o animal no meio da multidão. O timing tem que ser perfeito para que a polícia não interfira. Um helicóptero da polícia sobrevoou uma farra no dia anterior — tamanho uso de força era desconhecido pela população. "A polícia tá mais em cima do que nunca", reclama José, o empresário cearense.

Propriedade rural em SC tinha rebanho específico para Farra do Boi - Divulgação/Polícia Civil-SC - Divulgação/Polícia Civil-SC
Propriedade rural em SC tinha rebanho específico para Farra do Boi
Imagem: Divulgação/Polícia Civil-SC

Origens do animal

O boi é comprado de fazendeiros locais, que vêm ficando cada vez mais reticentes com as transações, com medo de repercussões penais. Eles custam de R$ 8 mil a R$ 12 mil reais, dependendo do tamanho, da idade e do quão brabo é. Quem os compra normalmente são grupos (às vezes) de homens, vereadores do município e empresários de mais recursos. Da fazenda ele é levado para um esconderijo, quase sempre em praias desertas, acessíveis somente pelas pedras e por casas com entrada exclusiva. Um caminhão-baú busca o animal e circula a cidade, à espera do sinal verde. Enquanto isso, os motoristas o localizam e perseguem até a hora da farra, aumentando intensamente a adrenalina de uma brincadeira já perigosa e ilegal. Neste ano, na maioria dos dias, o boi foi solto mais próximo das sete da manhã. "É o horário em que a polícia troca de turno", explica José.

Com a pandemia, as rondas da polícia se tornaram mais frequentes e isso constrangeu a população farrista. Segundo José, em 2009, a festa aglutinava quase 20 mil pessoas e contava, diariamente, com mais de cinco bois; em 2018, quase dez anos depois, este repórter visitou um evento que contava com aproximadamente 5.000 pessoas e que começava às 21h para terminar só no amanhecer, quando o animal fosse solto; hoje, com as adversidades, apenas 100 pessoas acompanham a farra. Por enquanto, foram-se os tempos de festas homéricas, com pessoas de todo Estado e até de fora. Agora é hora de reunião intimista de grupos de amigos — todos sem máscara, todos com muita bebida.

E reunidos estavam: frente a seus carros, rindo adoidado, parados na grama ao lado do Mar à Vista. O caminhão chegou com o pisca-alerta ligado — noutros anos, vinha buzinando —, rápido e eficaz. O boi voou como um relâmpago e, antes que pudessem notar a cor e os detalhes, sumiu no mato. Rapazes corajosos o perseguiram no emaranhado de plantas e na lama deslizante. "Mal deu pra ver o boi, um desperdício", reclamou um rapaz sem camisa, bebendo vodca com alguma coisa. O tão esperado clímax foi tão efêmero que não restou muito senão ficar parado bebendo e fumando.

Se solto numa rua movimentada, o animal até ficaria mais tempo brincando, mas poderia destruir carros e estabelecimentos. "Se o que foi destruído é de um farrista, nós não ajudamos. É um risco que a pessoa toma. Mas, se for de um morador, o grupo paga o conserto", explica José. Ele continua: "Muita gente acha que aqui se maltrata o animal, mas isso é em Bombinhas [município de Santa Catarina], lá é pesado. Aqui, quem bater em boi, acaba apanhando. Um rapaz foi machucar o bichinho com um pedaço de madeira, ficou na UTI." O que não quer dizer que o animal não se machuque: ele pode bater contra as coisas e se cortar, quebrar o chifre etc. Nesses casos, a orientação é parar a brincadeira.

Animal caiu em piscina de pousada durante Farra do Boi, considerado ilegal desde 1997 - Divulgação/GOR - Divulgação/GOR
Animal caiuem piscina de pousada durante Farra do Boi em Bombinhas (SC), em 27 de março
Imagem: Divulgação/GOR

O segundo boi, que seria lançado na rua da Olaria, nem deu sinal. Virou lenda. Alguns carros continuaram ziguezagueando pelo mapa de Governador Celso Ramos, à procura da farra perfeita. Outros tantos desistiram. "Não vai mais ter farra hoje, desiste", prenunciou um jovem de bigode e chapéu. Um pescador complementou: "Acabou! Agora só ano que vem, aqui não tem mais farra, agora é voltar a trabalhar". Quanto ao boi, se ficar com os farristas, será vendido ou trocado, visando o ano que vem. Se for pego pela polícia, será sacrificado.

*nome alterado a pedido do entrevistado