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Rodovia vira pista de treino para moradores de Jaboatão dos Guararapes (PE)

O assistente de logística Samuel Silva, correndo na rodovia próxima ao bairro onde mora, em Jaboatão dos Guararapes (PE) - Brenda Alcântara/UOL
O assistente de logística Samuel Silva, correndo na rodovia próxima ao bairro onde mora, em Jaboatão dos Guararapes (PE)
Imagem: Brenda Alcântara/UOL

Alice de Souza

Colaboração para o TAB, do Recife

21/07/2021 04h01

São 6h20 da manhã e o trecho da BR-408 entre o bairro do Curado, em Jaboatão dos Guararapes (PE), e o Terminal Integrado de Passageiros (TIP) do Recife está lotado. Não de carro, de gente.

Todos os dias, no início da manhã e no fim da tarde, uma multidão desce do bairro para dividir a faixa local com os carros e, sobretudo, os ônibus que chegam para deixar e buscar passageiros na rodoviária da capital pernambucana.

São pessoas de todos os perfis, mas com a mesma necessidade: praticar caminhadas e corridas. Como não têm nenhuma infraestrutura de lazer e esportes no bairro, correm na BR. É assim na BR-408 e também na BR-232.

Os caminhantes dizem não ter opção. No Curado IV, onde boa parte é ladeira e morro, moradores dizem que sequer há espaço para instalação de uma pista de caminhada, ainda que vez ou outra apareça algum político em campanha eleitoral prometendo o equipamento. A solução, que já virou hábito entre os locais, é ir para as margens das rodovias.

Na BR-408, no trecho próximo ao TIP, a prática é favorecida pela existência de uma via local, diminuindo a exposição e o contato tão próximo com os veículos. Chegar lá, por outro lado, exige habilidade de andar no acostamento e atravessar uma área sem faixa de pedestres.

Ir para a BR foi a única forma que o assistente de logística Samuel Silva, 38, encontrou de começar a praticar algum exercício. Morador do bairro do Curado há 20 anos, recebeu há sete um ultimato do médico: precisava fazer alguma atividade física para regular o peso. Estava com um desgaste patelar no joelho. Samuel olhou para os lados e não viu como executar os planos traçados pelo profissional. Foi então que decidiu ir ou voltar correndo do trabalho, na avenida Abdias de Carvalho — a via que liga o Recife ao agreste — todos os dias.

Saía, geralmente no fim da tarde, e tomava o rumo pelo acostamento. Eram cerca de 4km até lá, caminho que fazia com um medo justificado. Há motoristas compreensivos, que passam acenando, gritando palavras de incentivo. Bora, bora, corredor! Contudo, há outros prontos para amedrontar. Buzinam sem piedade quando chegam perto, passam jogando água das poças ou colocam o veículo colado no acostamento, para intimidar. "Quando é de manhã cedo, tem uns que gritam: 'vai dormir! Não tem o que fazer, não?'"

Samuel não se intimidou. Continuou a corrida, transformou em hábito, perdeu 19kg, chamou a atenção de um grupo oficial de corrida do bairro e hoje é corredor profissional. Tudo começou na estrada, sua pista oficial de treinos até hoje.

Corredores na rodovia em Jaboatão dos Guararapes (PE) - Brenda Alcântara/UOL - Brenda Alcântara/UOL
Imagem: Brenda Alcântara/UOL
Corredores na rodovia em Jaboatão dos Guararapes (PE) - Brenda Alcântara/UOL - Brenda Alcântara/UOL
Imagem: Brenda Alcântara/UOL

Evitando riscos

O relato de Samuel é o mesmo de qualquer pessoa com quem você conversa quando vai caminhar nas rodovias que cercam o Recife. Todos relatam já ter sofrido com buzinaço de um motorista enquanto praticava exercícios no acostamento. É aí que entram as estratégias compartilhadas, mesmo por aqueles que não se conhecem, para conseguir usar a rodovia como espaço para a prática de exercício físico.

A regra principal é não andar nunca de fone de ouvido: seria distração demais para quem precisa estar sempre atento. A atenção, mais do que a disposição, é o grande ativo de quem caminha na BR. Importa mais distinguir o barulho de um caminhão, de um ônibus ou de um carro, saber captar pela audição se o veículo está muito perto ou longe, assim como ouvir barulhos de pessoas próximas, do que ter energia para caminhar longas distâncias.

Não é preciso muito tempo acompanhando as passadas de quem caminha na BR para entender a preocupação. É fácil tomar um susto com o barulho de um caminhão ao lado, ou com o vento que chega, pela velocidade com que um carro, na paralela, cruza seu caminho. Também é fundamental ter cuidado com os buracos: qualquer deslize é queda. Samuel tem uma estratégia complementar, que é caminhar sempre na direção oposta a dos carros. "É mais seguro, né? Eu os vejo, e eles me veem. Se for o contrário, como tem gente que recomenda, é só o motorista que está me vendo", diz, mantendo a desconfiança como tática.

Samuel faz parte de um grupo específico, o dos corredores profissionais. Para ele, outra dica é praticar o esporte de manhã logo cedo, para pegar a via quase vazia — de carro, não de gente. À tarde, há vários complicadores, pela voz dos matutinos. "Parece um formigueiro", dizem alguns.

Para quem caminha na BR-408 pela manhã, 7h é hora de regressar: o fluxo de ônibus chegando à rodoviária aumenta. À tarde, é muita gente, muito carro e pouca iluminação. Depois das 17h, são poucos os que se arriscam. Com a luz baixa, sobe o risco de assaltos — e sobram boatos de pessoas já assaltadas enquanto caminhavam.

Corredores nas rodovias próximas a Jaboatão dos Guararapes (PE) - Brenda Alcântara/UOL - Brenda Alcântara/UOL
Imagem: Brenda Alcântara/UOL

Moda e estilo

A dona de casa Ana Lúcia dos Santos, 50, prefere fazer exercícios pela manhã. Mesmo assim, passou medo na rodovia. Por duas vezes, uma há seis meses, outra há alguns anos, viu um homem escondido no mato se masturbando enquanto via ela e as amigas caminharem.

Os episódios deixaram um trauma, e agora ela prefere ir sempre quando há mais gente, além de caminhar nas partes mais visíveis — porém com mais veículos — da rodovia. Ana Lúcia aproveita o percurso da filha, Angélica dos Santos, 27, ao trabalho. Antes de sair de casa, porém, tem um ritual: acorda todo dia às 4h, prepara os alimentos para o marido, e depois se organiza para correr.

Ana Lúcia quer suar e cria motivo pra isso. O primeiro passo é besuntar o corpo de parafina — segundo suas pesquisas pela internet, a cobertura aumenta a transpiração e ajuda a queimar calorias. Em seguida, veste uma camiseta feita de saco, confeccionada por ela com sacolas plásticas de supermercado — outra dica adquirida em uma busca no Google. Segundo Ana Lúcia, o saco embaixo da blusa esquenta mais o corpo, pelo menos é assim que sente os efeitos da caminhada.

Ana Lúcia não leva consigo nada além de um pano para se enxugar enrolado na mão. "Comecei as caminhadas há uns 15 anos, para manter o corpo. Eu venho com um pouco de medo, né, dos carros, mas só tem esse caminho mesmo para gente", conta.

Para chegar e sair do trecho em que caminha, ela precisa dar uma volta, ou seja, andar no sentido oposto, pois é o único lugar da via onde se sente segura para atravessar as quatro faixas segregadas. Não reclama: pelo menos, caminha mais.

A dona de casa Ana Lúcia dos Santos, praticante de corrida na rodovia perto de casa, em Jaboatão dos Guararapes (PE) - Brenda Alcântara/UOL - Brenda Alcântara/UOL
A dona de casa Ana Lúcia dos Santos, praticante de corrida na rodovia perto de casa
Imagem: Brenda Alcântara/UOL

Caminhantes de primeira viagem

Depois de dois anos morando em Belém (PA), a autônoma Sônia Nunes, 61, regressou ao Recife em 2020. Mora no Curado IV, lá em cima (aponta e mostra à reportagem). Faz 10 anos que ela começou a descer as ladeiras para praticar exercícios na BR, por recomendação recebida na Unidade Básica de Saúde, depois de descobrir que estava com taxas de colesterol alteradas. Na época, descia para a estrada com as amigas, mas aos poucos, por preguiça, cada uma foi deixando o hábito de lado. Desde que voltou ao Recife, Sônia estava ansiosa para regressar à BR. Dessa vez, recrutou os dois netos.

O motivo, além de manter a boa forma, foi tirar Riquelme Nunes, 13, da frente do videogame. Ela reclama que o menino só vivia comendo, sentado e jogando, desde que começou a pandemia. Decidiu acordar os netos e sair às 5h30, lá de cima, até a via plana para caminhar com ele e o irmão, Everson Nunes, 21. Na bolsa de crochê, só o básico, duas garrafas de água, uma para Sônia, outra para os netos, um álcool em gel e uma toalha. Sônia tem o passo apressado, é veterana e vai sempre na frente dos netos, que tentam mas não conseguem acompanhar o ritmo da avó.

O grupo não se arrisca direto na BR. Atravessa com dificuldade as faixas e prefere entrar na bifurcação na frente do terminal de passageiros. Mesmo assim, ainda se assusta quando passa um ônibus mais próximo. O desafio é ficar sempre prestando atenção ao movimento, o que se torna mais difícil à medida que todos vão cansando. "A gente quer ficar vindo três vezes por semana, mas vamos ver o que vai acontecer", conta Sônia, ao mesmo tempo em que pede a um dos netos para lembrá-la de chamar uma amiga com quem frequentava a estrada para caminhar.

Corredores em Jaboatão dos Guararapes (PE) - Brenda Alcântara/UOL - Brenda Alcântara/UOL
Imagem: Brenda Alcântara/UOL

A buzina do assédio

Se os matutinos podem escapar da concentração de carro, os vespertinos precisam mesmo dividir o asfalto com todo tipo de veículo. Uma relação nem sempre harmoniosa, sobretudo se o grupo de caminhantes é composto só por mulheres. A servidora pública Fernanda Macedo, 34, corre uma vez por semana na BR-408. Sempre vai com uma amiga. Quase nunca elas escapam de uma buzina, uma frase pejorativa sobre seus corpos. Por sorte, como o barulho dos motores é sempre alto, sequer escutam.

Nem a chuva nem o feriado de 16 de julho, em comemoração à padroeira do Recife, Nossa Senhora do Carmo, impediram de ela e a amiga, a manicure Telma Santos, 47, saírem de casa para correr na estrada. Elas percorrem 8km, vão até as imediações da rodoviária e voltam. Pegam vários trechos sem acostamento e sobem viaduto. Ao longo do caminho, não param. Mesmo para dar entrevista, permanecem trotando, para manter o ritmo.

Preferem a tarde porque o sol está mais baixo, além de casar com o fim do expediente. Tal qual Samuel e os frequentadores matutinos, preferem estar sempre na direção oposta, para ver os veículos. Às vezes, isso é bom. Na maioria, no mínimo desagradável. "Eles passam, buzinam sempre, às vezes falam algumas frases, cantadas, dizem 'deixa eu correr com vocês'. É bem desagradável, esses sem-vergonha, nós duas somos casadas", conta Fernanda. Enquanto narram as motivações para caminhar e as agruras da atividade, quatro motoristas passam buzinando forte. Segue o baile.