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Repulsa contra a moral e o pornô tradicional: o que prega o pornoterrorismo

Bruna Kury se autodenomina "anarcatransfeminista" e realiza performances pós-pornográficas - Reprodução/ Bruna Kury
Bruna Kury se autodenomina 'anarcatransfeminista' e realiza performances pós-pornográficas Imagem: Reprodução/ Bruna Kury

Daniel Lisboa

Colaboração para o TAB

28/08/2020 04h01

Flávio Resende de Carvalho foi desenhista, pintor, arquiteto, cenógrafo, escritor, teatrólogo. Acima de tudo, foi um provocador. Em 1931, atravessou uma procissão no sentido contrário usando um boné. As pessoas que dela participavam -- era feriado de Corpus Christi, em São Paulo -- acharam aquilo tão desrespeitoso que Flávio precisou ser protegido pela polícia. Quase terminou linchado.
Tratava-se de um estudo antropológico para testar os limites da tolerância e agressividade de uma multidão religiosa. Virou até livro: "Experiência nº 2: uma possível teoria e uma experiência".

No carnaval de 2019, a performer Paulx Castello protagonizou o famoso episódio do "golden shower". Deixou que um amigo urinasse na cabeça dela no meio da rua, no centro da São Paulo. Filmada, a cena foi compartilhada pelo Jair Bolsonaro e a repercussão foi tamanha que Paulx e o companheiro de "chuva dourada" tiveram que se refugiar alguns dias no litoral paulista.

Separadas por 88 anos, as duas experiências são performances que têm em comum o elemento provocador e insultuoso. Despertar o ódio, a revolta e o nojo valendo-se de atuações que utilizam o grotesco, o violento ou simplesmente aquilo que foge aos padrões é um tipo de arte. Questionar os padrões vigentes do mercado pornográfico também está entre seus principais objetivos. Mas vai além disso: em tempos ultraconservadores, sua proposta ganha novos contornos e dimensões.

Dor, performance e arte

"Nossas performances sempre geraram questionamentos. Qual é o limite? Isso é muito enriquecedor. Queremos destruir essa máquina de construção de gêneros capitalista e heteronormativa", diz Raíssa Vitral. Integrante do Coletivo Coiote, ela protagonizou o que foi provavelmente a mais polêmica performance do tipo nos últimos anos.

Convidado pela UFF (Universidade Federal Fluminense) a encerrar um seminário sobre "corpo e resistência", dias antes de começar a Copa do Mundo em 2014, o coletivo ganhou as manchetes porque Raíssa introduziu uma bandeira do Brasil na vagina e teve a genitália costurada (sem anestesia) em público. "Vivíamos na Aldeia Maracanã e havíamos sido desalojados", conta Raíssa. "Além disso, o evento aconteceu em Rio das Ostras, que tinha um índice altíssimo de estupros. Minha intenção era denunciar tudo isso."

A performance recebeu o nome de "Xereka Satânika". Bastou para que diversos sites, jornais e outros veículos rotulassem o que aconteceu como um ritual. O Ministério Público Federal chegou a abrir um inquérito para investigar, mas concluiu que o evento não promoveu nenhum ato criminoso.

Performance do Coletivo Coiote na Marcha das Vadias em Copacabana, Rio de Janeiro, em julho de 2013 - Marcelo Santos Braga/Divulgação - Marcelo Santos Braga/Divulgação
Performance do Coletivo Coiote na Marcha das Vadias em Copacabana, Rio de Janeiro, em julho de 2013
Imagem: Marcelo Santos Braga/Divulgação

Raiva e revolta

O Coletivo Coiote se aproxima do chamado "pornoterrorismo", ou da "pós-pornografia". O termo ficou conhecido a partir de um livro de mesmo nome da espanhola Diana J. Torres, grande referência mundial no assunto.

Artista multifacetada, Diana vai da poesia a performances que incluem masturbação com os mais variados objetos e automutilação. "Entre a biografia e a filosofia, Diana nos presenteia com uma profunda reflexão sobre o sexo e as práticas sexuais, a moral, a política. Porque o pornoterrorismo é algo que pulsa, que jorra... Um impulso composto por desejo e imaginação", diz a contracapa da edição espanhola de "Pornoterrorismo".

"O pornoterrorismo é uma junção entre duas coisas 'rechaçáveis', a pornografia e o terrorismo, contra as morais religiosas e sexuais. Ele transforma toda a raiva e a revolta em arte", explica a socióloga Carolina Ribeiro Pátaro. Ela é a autora de uma tese de doutorado sobre pornoterrorismo pela UFPR (Universidade Federal do Paraná). "Conheci o trabalho da Diana e fique incomodada. Decidi me perguntar o porquê do incômodo e começar a pesquisar, ir atrás de quem estava fazendo a mesma coisa aqui no Brasil", conta Pátaro.

A tese analisa trabalhos do Coletivo Coiote e outros artistas brasileiros, como Pêdra Costa, Jota Mombaça, Michelle Matiuzzi, Elton Pananby e Filipe Espindola. Em comum ao trabalho de todos está o debate e a desconstrução em torno de temas como ancestralidade, raça e gênero.

"O pornoterrorismo brasileiro tem muitas particularidades quando comparado ao trabalho de Diana Torres", diz Pátaro. A performer espanhola fala muito sobre violência, mas vem de uma família anarquista, de classe média. "Aqui, passamos pelo processo de colonização e temos uma falsa democracia racial. Os artistas brasileiros enfrentaram um processo ainda mais violento para serem quem são."

A performer Bruna Kury - Divulgação - Divulgação
A performer Bruna Kury
Imagem: Divulgação

Obras que causam polêmica são bem-vindas, na opinião da socióloga, "até porque temos um governo que vive de polêmica em polêmica para encobrir o que está por baixo. É um incômodo revolucionário. A ideia é causar um impacto visceral. Causar nojo, repulsa. Fazer você sair do lugar do amor, do 'fru-fru', e acessar seus sentimentos ruins, sua revolta".

Das ruas para livros e telas

"Sempre preferimos as ruas para fazer nossas performances, não museus, onde as pessoas pagam para ver arte", diz Raíssa. "Mas acho um tanto impossível fazer isso agora. A perseguição ao nosso trabalho seria muito maior por parte da galera bolsonarista. Até porque não esquecem da gente: viria e mexe a Damares Alves (Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos) fala alguma coisa. Não cita nosso nome, mas lembra alguma performance."

Correndo perigo nas ruas, o Coiote partiu para explorar outras plataformas. O coletivo lançou, por exemplo, um livro de crônicas ("Crônicas Coiote") e está finalizando o curta-metragem "Pornorecicle", com artistas do Rio de Janeiro e São Paulo. Nele, os participantes interagem, com direito à muita pegação e masturbação, em meio à xepa (restos de frutas e vegetais).

"A xepa é uma maneira de termos autonomia. De reciclar coisas que as pessoas não querem. Tem gente passando fome e, por essa questão capitalista, de mercado, muita coisa que não é lixo acaba jogada fora", diz Raíssa sobre o filme.

Prolapso no Congresso

"Há até pouco tempo, ainda tínhamos abertura dentro das universidades para essas performances. Os próprios organizadores dos eventos os defendiam", diz a socióloga. "Hoje, nem fomento para isso temos. Uma amiga escreveu sobre prolapso retal (quando o ânus e o reto literalmente se projetam para fora das nádegas) e a tese dela ("A folia dos cus prolapsados") foi parar no Congresso como sinônimo de devassidão."

Se, no Brasil, até tese acadêmica é motivo para faniquitos, lá fora trabalhos que aqui causariam convulsão coletiva são respeitados. A performer e antropóloga Pêdra Costa, por exemplo, foi aceita na conceituada Academia de Belas Artes de Viena, na Áustria, e teve suas performances apresentadas em Berlim, Madri, Nova York, Los Angeles e Santiago, no Chile.

Jota Mombaça, escritora e artista virtual que trabalha as relações entre monstruosidade e humanidade, ganhou do Público, maior jornal de Portugal, uma longa reportagem com o título "O corpo de Jota Mombaça é um manifesto".

Na Áustria, um episódio que hoje poderia se encaixar no universo do pornoterrorismo é lembrado como histórico. Em 7 de junho de 1968, estudantes da Universidade de Viena fizeram a performance chamada "arte e revolução". Consistiu em defecar, vomitar e chicotear a bandeira austríaca, além de masturbação ao vivo. Tudo ao mesmo tempo em que o hino da Áustria era cantado.

Raiva? Horror? Indignação? Não. Quando completou 50 anos, "arte e revolução" ganhou uma matéria no jornal Der Standard, um dos mais importantes do país, com o subtítulo: "a história da arte foi escrita em 7 de junho de 50 anos atrás".

Bruna Kury, que se apresenta como "anarcatravesti", já integrou o Coletivo Coiote, entre outros, e também está no "Pornorecicle". Performer, artista visual e sonora, já fez performances e residências artísticas na Argentina, México e Equador. "A nomenclatura pornoterrorista pode até, em algum momento, conversar com o que produzo. As singularidades nas revoltas acabam nos aproximando. Mas, de algum modo, vejo meu trabalho de forma muito mais ampla. O que é terrorismo acaba sendo determinado pela instituição do Estado, por isso acabamos vendo manifestantes, ativistas etc sendo denominades de 'terroristas'. Terrorista é o Estado, é a cissexualidade obrigatória e vários fundamentos que constituem as estruturas de opressão social!", diz ela.

"Cavuco questões que vão na contramão do que extermina corpos dissidentes e que não estão enquadrados nas normas e nos padrões", explica a artista. "Não só o pornográfico ou violento ou grotesco, mas tudo de alguma forma transmite uma mensagem. As insígnias estão implícitas muitas vezes, mas estão lá, compondo a complexidade de uma manifestação. O que a pornografia anula de possibilidades de prazer não colonizado, ou o que ela como mídia comunica, é o que o pós-pornô vem questionar dentro da indústria que representa esses corpos hegemônicos como regra", afirma Bruna.

Para Bruna, o principal papel do pornoterrorismo é combater "a indústria da pornografia que propaga a submissão de corpos de mulheres cis e trans, a racialização, e subjuga a dissidência, compactuando diretamente com o imaginário do que é certo e saudável ou daquilo que é colocado como 'bizarro, fetiche e abominável".

Coletivo Coiote - Divulgação - Divulgação
Coletivo Coiote
Imagem: Divulgação

Ameaça pornográfica

Um ano e meio depois do episódio do golden shower, Paulx Castello mantém uma produtora de "pornografia desviante", a Ediyporn.

"Dos vários vídeos de 'obscenidades' públicas do carnaval 2019, o presidente publicou o protagonizado por duas bichas que realizavam uma prática escatológica. Se ele tivesse usado um vídeo de um casal cis hétero em que a mulher fazia sexo oral no homem, não teria 'funcionado'? Isso diz sobre o que é moralmente condenável", diz Paulx.

A performer (Paulx prefere ser chamada pelo pronome feminino) acredita que "o pornoterrorismo, assim como o pós-pornô e o pornô desviante, são parte de um movimento que está repensando nossas corporalidades, desejos e prazeres, entendendo a toxicidade da pornografia tradicional e o tanto que ela construiu nosso imaginário sexual baseando nossas preferências em valores machistas, racistas, transfóbicos, gordofóbicos, capacitistas, classistas e opressores".

A mensagem final, porém, é de certo otimismo: "acho que podemos ficar relativamente otimistas em relação ao conservadorismo na cultura, se olharmos para a os movimentos de artistas trans e pretas(os) que vêm ganhando força e espaço nos meios culturais. É uma resposta muito potente ao atual desgoverno. Os conservadores estão gritando tanto porque estão se sentindo ameaçados. E nós, conquistando cada vez mais espaços que antes eram só deles. É tempo de restituição."