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Aldeia guarani Tekoa Pyau combate as trevas na zona norte de SP

Richard Wera, na casa de rezas da aldeia Guarani no Jaraguá, em São Paulo - Breno Castro Alves/UOL
Richard Wera, na casa de rezas da aldeia Guarani no Jaraguá, em São Paulo
Imagem: Breno Castro Alves/UOL

Breno Castro Alves

Colaboração para o TAB

25/02/2021 04h01

O celular de Richard Wera não para de apitar. O jovem Mbya está no meio de uma campanha de vaquinha virtual para religar a eletricidade de Tekoa Pyau. Sua casa é a aldeia mais populosa da Terra Indígena Jaraguá, a 30 minutos de carro da praça de Sé, em São Paulo.

Wera encontrou a reportagem de TAB na tarde de segunda-feira (22), um dia após a eletricidade cair para a maior parte das 92 famílias que ali moram. Ele lançou o pedido de ajuda nas redes sociais e agora seu telefone apita incessantemente.

O jovem fez dezoito anos há poucos dias. Usa bermuda, moletom de capuz e sandálias crocs. Conversa sentado em um tronco de madeira próximo à entrada de Tekoa Pyau. Espera o entregador que chegará com os materiais da nova caixa de força. Ao seu redor há uma dúzia de casas de tábua e um bando de cachorros sem dono. Seus olhos seguem no celular, que apita.

A eletricidade sempre caiu, mas dessa vez foi pior. Os cabos grossos, que ligam o poste à caixa de eletricidade e disjuntores, queimaram definitivamente e foi preciso trocar tudo. Os mais velhos da aldeia iniciaram a vaquinha física, e Richard, que mantém na internet o perfil @midiaguaranimbya, com quase 20 mil seguidores no Instagram e outros 3,7 mil no Facebook, lançou a arrecadação digital.

O sol não espera e a tarde cai. Seu Android apita, o jovem sorri. "Quem foi dessa vez?", alguém pergunta. "Maria Gadú acabou de compartilhar a vaquinha", comemora. Revela que a cantora é apoiadora frequente das lutas Guarani Mbya.

Um cachorro de que não se sabe o nome senta-se por ali e Richard continua com a cara na tela. Criou as páginas durante a ocupação que ele e seus companheiros realizaram no centro ecológico Yary Ty, terreno vizinho a Tekoa Pyau. Denunciaram a construtora Tenda, que derrubou centenas de árvores ilegalmente em janeiro de 2020, avançando na marra a construção de seu projeto de prédios.

Aldeia Guarani no Pico do Jaraguá - Richard Wera/UOL - Richard Wera/UOL
Imagem: Richard Wera/UOL

Os guarani ocuparam a área e tiveram sucesso. A Justiça interrompeu as obras, que seguem paradas. A mesma Justiça determinou também a reintegração de posse, isto é, o uso da força pela polícia militar para a expulsão dos ocupantes. Mas não foi necessário: os indígenas se retiraram antes da chuva de bombas que a presença da tropa de choque anuncia.

Richard se incomodou com a baixa cobertura da imprensa a esse grande conflito. Assim nasceu a página @midiaguaranimbya, que estourou quando transmitiu a reintegração de posse ao vivo. As circunstâncias catapultaram Richard para a função de comunicador, poucos dias após completar dezessete anos.

Não esperava que crescesse tanto. Está se esforçando, mas sem pressão. Sabe que tem um raro espaço para amplificar as vozes de seu povo. Ele, que sempre foi quieto, quer aprender a falar mais e melhor.

Os disjuntores quebrados na aldeia Guarani, no Jaraguá, zona norte de São Paulo - Richard Wera/UOL - Richard Wera/UOL
Imagem: Richard Wera/UOL

Free Fire no celular

O chão de Tekoa Pyau se mistura com cachorros e crianças. A eletricidade não voltou e Richard ainda espera sentado quando um menino de onze anos e doçura excessiva se aproxima. Faz-lhe carinho, toca gentilmente o rosto, a cabeça, encosta seus pequenos dedos na boca do jovem comunicador, sorri muito perto para melhor exibir os enormes olhos de criança.

Fala guarani e melosamente pede algo, o que provoca a brusca negativa de Richard. O menino usa um tom de manha que não precisa ser traduzido e que de nada adianta contra a reiterada recusa do mais velho.

Afasta-se, frustrado e sorrindo. "Acabou a bateria do celular da mãe dele, agora quer o meu para jogar Free Fire", traduz Richard, e dá risada. Os jogos eletrônicos dividem espaço com o bate-papo, o jogo de futebol e a casa de rezas, que se chama opy e é o centro desta e de muitas comunidades guarani.

Márcio Wera Mirim Rodrigues e Richard Wera, na aldeia Tekoa Pyau, no Jaraguá (SP) - Breno Castro Alves/UOL - Breno Castro Alves/UOL
Márcio Wera Mirim Rodrigues e Richard Wera
Imagem: Breno Castro Alves/UOL

São quase 18h e nada de materiais entregues. Quem chega é Márcio Wera Mirim Rodrigues, 43, o vice-cacique a quem os parentes chamam de Biju. Volta da cidade, é expansivo e está sorrindo alto. Convida a reportagem para sua casa.

Sentamo-nos em cadeiras pequenas, em volta de uma mesa de escola infantil. A vista dá para o pico do Jaraguá e o jogo de futebol. Márcio mora ali com sua companheira Lúcia Ara Poty Veríssimo, 30, e seus filhos. Ficam em cima do campinho, a casa de tábuas na parte mais alta da aldeia, espremida pelo muro que separa este povo da rodovia dos Bandeirantes.

A primeira coisa que faz ao chegar em casa é sacar seu petynguá, o cachimbo sagrado que acompanha quase todo guarani. Garante que é assim que deixa o estresse da cidade para trás. Depois do petynguá, que queima fumo de corda, relaxa e pode se deixar acolher pela aldeia. Faz seis meses que foi escolhido vice-cacique, honraria que traz muitas responsabilidades e nenhum salário.

É papel das lideranças negociar e interagir com o mundo burocrático dos brancos. Diz que acorda todos os dias para tirar as leis do papel e aplicá-las ao mundo real. Sonha com uma escola-modelo dentro de sua aldeia, uma que tenha quadra, cozinha, sala de computadores capazes de formar jovens guaranis nas tecnologias e nos meios dos não-indígenas.

Sua língua materna é o guarani, que escreve e lê muito melhor do que o português. Tem sotaque, e gostaria de falar melhor. Veste uma camisa pólo verde, bermuda jeans e tênis All Star, usa dois braceletes de miçanga e um colar com dentes de javali.

Relata que vestir as presas do animal é uma forma de se aproximar dele, de incorporar uma característica marcante daquele ser — no caso, a força dos dentes. Garante que não sabe o que é dor de dente nem cárie, e nunca precisou ir ao dentista.

Márcio Wera Mirim Rodrigues e seu petynguá, no Jaraguá (SP) - Breno Castro Alves/UOL - Breno Castro Alves/UOL
Márcio Wera Mirim Rodrigues e seu petynguá, no Jaraguá (SP)
Imagem: Breno Castro Alves/UOL

Luz do fogo

Uma garotinha de talvez seis anos se aproxima, querendo conversar. Veio falar sobre seus "quatro" cachorros, cujos nomes são "Pitoco, Urso e 'não sei'". Mexe no caderno de anotações, na lapiseira, deixa marcas de terra que melhoram o papel e se vai, pura risada. Ficam os cachorros de Márcio e Lúcia: Ruivo, Fada e Mba'e Vaikue, que significa 'Ô coisa feia'.

O sol finalmente se põe atrás do pico do Jaraguá. Márcio se levanta para colocar fogo em uma pilha de folhas que algum parente juntou por ali. As chamas sobem rápido, e ele volta à mesa explicando o papel da luz em seu modo de vida.

Todos ali sabem que é necessário deixar uma fagulha acesa onde houver velho doente ou criança pequena. Garante que todos os seres possuem duas almas. Mesmo os rios, a chuva e a noite possuem duas almas, uma da luz e outra das sombras. A luz acesa funciona como farol na escuridão.

Informa que na opy sempre há uma brasa queimando. A qualquer hora do dia e da noite, deve haver uma fagulha luminosa dentro da casa de rezas. Serve como referência de luz, impede que humano ou espírito caminhe demais rumo à escuridão.

Vista do Pico do Jaraguá ao fundo e, à dir., 'opy', a casa de rezas, na aldeia Tekoa Pyau, em São Paulo - Breno Castro Alves/UOL - Breno Castro Alves/UOL
Vista do Pico do Jaraguá ao fundo e, à dir., 'opy', a casa de rezas, na aldeia Tekoa Pyau, em São Paulo
Imagem: Breno Castro Alves/UOL

"Mas o pior são os cachorros", reclama Lúcia, sob a noite ainda sem lua. Brilham no céu apenas as antenas do Pico do Jaraguá. Fogueiras de outras famílias iluminam Tekoa Pyau enquanto Lúcia relata que as crianças da aldeia adotam todo e qualquer animal abandonado que passa por ali — e isso se tornou um grande problema.

De dia eles são um bando barulhento, que se confunde com o chão e com as crianças. À noite, alguns animais se tornam agressivos. Seu filho levou uma mordida feia na perna. Ela mesma, Lúcia, por vezes não sai de casa, cheia de medo dos cachorros sem dono que jamais morrerão de fome.

A noite cai pesada. Márcio e Lúcia seguem juntos para a casa de rezas, a eletricidade não volta e a entrevista acaba. Na saída é necessário desviar do portão principal e pegar determinada porta lateral. Na entrada maior há um bando de cachorros que hoje, no escuro, está particularmente agressivo.

Os materiais chegam na manhã seguinte (23). Os reparos prosseguem, a eletricidade volta à aldeia Tekoa Pyau às 15h. A vaquinha é um sucesso — até a tarde do dia 23, já tinha recebido apoio de cinquenta parceiros.