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As cores têm moral? Como coisas boas e figuras como Jesus ‘embranqueceram’

"Santa Ceia" de Leonardo da Vinci, com Cristo renascentista, branco e loiro - Wikimedia Commons
'Santa Ceia' de Leonardo da Vinci, com Cristo renascentista, branco e loiro
Imagem: Wikimedia Commons

Edison Veiga

Colaboração para o TAB, de Bled (Eslovênia)

25/08/2020 04h00

Está no léxico: denegrir é algo negativo. Esclarecer, contudo, resolve a questão. A noiva geralmente veste branco e, no casamento, madrinha nenhuma costuma trajar preto. Se morre um parente ou amigo, são as cores escuras no vestuário que simbolizam o luto. Ninguém quer ser incluído na lista negra ou sentir-se num buraco negro. Comprar um produto no mercado negro não costuma ser boa ideia.

Os anjos são representados como loirinhos de cabelos encaracolados e olhos azuis, com túnicas brancas ou, pelo menos, em tons bem claros. Já os vilões, sejam os religiosos, sejam nos filmes e quadrinhos, vêm carregados de tons escuros, capas e chapéus pretos — e preferem ambientes sombrios. Expressões que reforçam isso existem aos montes: "inveja branca", "a coisa está preta", "de alma branca", e por aí vai.

Independentemente da origem das palavras, o sentido figurado é dado pelo uso, ao longo do tempo. "Se 'denegrir' tem o sentido original de 'tornar mais escuro' ou 'obscurecer', em princípio não aponta para nada negativo, mas apenas para uma direção de algo mais claro vir a tornar-se escuro; no momento em que o sentido passa a ser também o de 'difamar' ou 'manchar a reputação de alguém', deve ser um termo combatido", afirma ao TAB o jornalista Luciano Guimarães, autor do livro "A Cor Como Informação" e professor da Universidade de São Paulo (USP).

"Na mesma linha, o 'preto no branco' é o que é verdadeiro, é positivo, é a tinta sobre o papel. Mesmo assim, se tivermos indícios de que um termo é ofensivo a um grupo de pessoas, devemos substituí-lo. Se um representante de um grupo social afirmar que um termo é ofensivo a este grupo, não é a convicção pessoal do emissor que deve prevalecer."

A moral da cor

Guimarães explica que uma cor pode ser lida de três formas: biofisicamente, linguisticamente e culturalmente. "Essas três dimensões podem estar ligadas. Assim, o significado de uma cor em certo contexto pode ter sido construído apoiado em códigos linguísticos e estes, por sua vez, em códigos biofísicos. Este é o caso da simbologia do preto, como cor que se opõe ora ao branco, ora ao vermelho e ora ao colorido", diz.

Na dimensão biofísica, o preto se opõe ao branco assim como o escuro se opõe ao claro; é um aspecto binário natural do mundo, sem qualquer tipo de valoração: apenas a presença ou ausência de luz. "É quando começamos a compartilhar e relatar experiências que passamos a fazer associações positivas ou negativas. Os códigos linguísticos são a base desse compartilhamento: quando passam a ser assimilados de forma naturalizada por simples exposição, tornam-se códigos culturais."

Essa ênfase acabou consolidada, em nossa cultura judaico-cristã ocidental, até mesmo por relatos bíblicos. No Gênesis, Deus começa criando o mundo "fazendo a luz" — e vendo que a luz era boa. Então a luz é separada das trevas. Luz e sombra, então, representam respectivamente o bem e o mal.

"Não ignoramos que algo da negatividade atribuído ao preto vem de quando o homem começou a codificar a diferença entre luz e escuridão, principalmente diante dos perigos da noite, já que não tem boa visão noturna", comenta Guimarães. E essa experiência segue replicada nos tempos modernos. Afinal, o bebê dorme no escuro, mas se acorda chorando no meio da noite, os pais o acalmam em um gesto "quase sempre acompanhado da luz, com a porta sendo aberta ou de uma lâmpada sendo acesa", lembra o professor.

No mundo europeu já existia esse conceito desde a Antiguidade Clássica, entre gregos e romanos. Em seu livro "Racismos", o historiador português Francisco Bethencourt, professor do King's College de Londres, pontua que no Império Romano os negros eram considerados um povo "queimado pelo sol". Os atenienses da Antiguidade também valorizavam mais aqueles que estavam desde sempre no território, ou seja, tinham ascendência pura.

Quando a Europa passou a exercer primazia sobre o resto do mundo, tais valores começaram a se fortalecer. "O racismo resultante da expansão europeia pode ter reforçado o simbolismo de cores que já existia", diz Bethencourt, ao TAB. "Os símbolos das cores têm uma história própria que varia com o contexto cultural. É difícil relacioná-la diretamente com o racismo. É verdade que as cores escuras estão mais relacionadas com características negativas em diferentes civilizações."

Cristo loiro

A simbologia das cores chegou à religião mais importante do contexto medieval, é claro: a poderosa Igreja Católica. "Não há como saber qual era a cor da pele de Jesus. Acho mesmo que tal aspecto não tinha qualquer relevância no ambiente judaico da primeira metade do século 1º. Mas na medida em que o catolicismo se torna uma experiência religiosa europeia, particularmente depois do Cisma de 1054 [rompimento que leva à criação da Igreja Romana e da Igreja Ortodoxa], a forma de representá-lo ganhou contornos de uma estética branca", pontua ao TAB o historiador e antropólogo André Leonardo Chevitarese, autor de "A Descoberta do Jesus Histórico" (2009). "Com o conceito de raça ganhando contornos de 'verdade' científica, a partir da segunda metade do século 18, Jesus se tornou o modelo ariano por excelência. O racismo instaurou uma forma de representação imagética de Jesus na chamada modernidade."

Ator Maurício Gonçalves interpreta Jesus Cristo negro no filme 'O Auto da Compadecida', adaptação de Guel Arraes da peça de Ariano Suassuna - Reprodução - Reprodução
Ator Maurício Gonçalves interpreta Jesus Cristo negro no filme 'O Auto da Compadecida', adaptação de Guel Arraes da peça de Ariano Suassuna
Imagem: Reprodução

A implicação de tal constatação foi imensa. Em sociedades fortemente marcadas pela tradição católica, a representação branca de Deus fez com que pessoas de outras etnias, normalmente já discriminadas pelo tecido social, se vissem em posição de inferioridade.

Para o padre Eugênio Ferreira de Lima, da Paróquia Cristo Rei, em Ipatinga (MG), membro do Instituto Mariama de Articulação dos Padres, Bispos e Diáconos Negros e historiador, essa dor remete à infância. "Fui vítima disso na catequese, e isso me marcou muito", conta ele. "Os anjinhos são todos brancos, o branco é que é bonito. A gente acaba achando que negro é impuro, que negro não presta."

Ele cita a representação de São Miguel derrotando o demônio na iconografia católica. "Ele está esmagando o diabo, e o diabo é negro. Por que tem de ser negro? Isso, para mim, dói", comenta. "Hoje até tenho uma imagem de Cristo negro, com cabelo tipo o meu, mas não acho que é certo também, não. Cristo enquanto verbo que se encarnou, encarnou numa cultura. Ele é judeu, enquanto homem. Não pode ser policrômico. Tem uma característica, mais moreno, mas não era negro igual a mim. Assim como não era japonês", diz o padre.

Conforme explica a historiadora neozelandesa Joan Taylor, autora do livro "What Did Jesus Look Like?" e professora do King's College de Londres, as mais antigas representações de Cristo, ainda no Oriente Médio, o mostram "com pele morena, apropriada à sua etnia". "De modo geral, nas igrejas ortodoxas não houve o mesmo embranquecimento de sua imagem, exceto quando a Igreja Ortodoxa se espalhou para o norte — para a Rússia, por exemplo. A antiga igreja etíope há muito retrata Cristo como negro."

O branqueamento de Jesus ocorreu quando artistas europeus passaram a "produzir imagens apropriadas para suas comunidades, usando modelos locais", aponta a historiadora. A disseminação dessas características pelo mundo veio com o processo de colonização. A imagem de um Jesus branco, então, acabou apresentada pelos missionários como padrão.

"Na colonização, a cor branca vem de uma forma imposta, marcante e excludente", afirma ao TAB frei Marcelo Toyansk Guimarães, da Comissão Justiça, Paz e Integridade da Criação dos Frades Capuchinhos do Brasil. "Os de pele mais escura foram colonizados por brancos, então, considerar Jesus branco é, sim, um tipo de racismo."