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Queernejo: artistas LGBTQ+ querem conquistar seu espaço na música sertaneja

Gabeu é um dos expoentes da música queerneja. Movimento iniciado por músicos do interior nasceu para quebrar preconceitos do gênero musical e busca representatividade e respeito pelas minorias sexuais - Divulgação/ Gabriel Renné
Gabeu é um dos expoentes da música queerneja. Movimento iniciado por músicos do interior nasceu para quebrar preconceitos do gênero musical e busca representatividade e respeito pelas minorias sexuais Imagem: Divulgação/ Gabriel Renné

Henrique Santiago

Colaboração para o TAB

28/07/2020 04h00

Imagine um homem gay, uma mulher lésbica não-binária e uma mulher trans fazendo um show de música sertaneja. Parece atípico, mas esses três personagens são responsáveis pelo início de um novo movimento musical, o queernejo, que busca trazer a representatividade LGBTQ+ para dentro de um universo historicamente dominado pelo homem branco e hétero do interior do Brasil.

O queernejo nasceu de uma vontade de jovens do campo de fazer as pazes com o seu passado musical. Isso porque eles e elas cresceram com a música sertaneja e souberam, desde muito cedo, que o ambiente que os cercava era opressor para aqueles que não seguiam o padrão heteronormativo. Após muitos anos de embates com suas raízes, hoje, finalmente, se sentem identificados — mas querem reformular o que se entende como sertanejo.

O propósito do movimento, também chamado de "pocnejo", "travanejo" e "sapanejo", é abraçar a diversidade da comunidade LGBTQ+. Além de instrumentos tradicionais como a viola caipira, os artistas exploram elementos da música pop, brega, country e do próprio sertanejo universitário na estética sonora e visual. A reunião desse caldeirão de referências seria apresentada oficialmente em junho, no Fivela Fest, o primeiro festival queernejo do Brasil, que foi adiado pela pandemia de Covid-19.

Um dos expoentes é Gabeu, filho do sertanejo Solimões, da dupla com Rio Negro, que lançou seu primeiro single, "Amor Rural", em 2019. Embora tenha acompanhado o pai em shows pelo Brasil, era com Lady Gaga que encontrava seu lugar de refúgio como um adolescente homossexual do interior.

Aos 22 anos, o cantor nascido em Franca (SP) acredita que essa falta de pertencimento com o sertanejo existe até hoje, mas sua intenção é desconstruir essa ideia com um som raiz, ao mesmo tempo moderno, bem-humorado e crítico. A letra de sua canção de estreia deixa a ideia bem clara: "Vamos assumir o nosso amor rural / Sai desse armário e vem pro meu curral".

"É muito importante gerar essa identificação porque eu fui um menino gay que cresceu no interior, sem referência LGBT dentro do sertanejo, e com o sertanejo ao meu redor o tempo todo. Por muito tempo, achei que não seria possível trabalhar com música porque tudo à minha volta era sertanejo e hétero e eu pensava que não teria espaço nesse mercado. Para além da música, quando vemos pessoas como nós nesses espaços, se torna mais fácil achar que é possível", avalia Gabeu, em conversa com o TAB.

Contra a masculinidade tóxica

Quem passou por uma transformação artística e pessoal completa foi Gali Galó, 30. Sua incursão na música já vem de tempos, quando ainda se apresentava como Camila Garófalo — uma artista que bebia na fonte do rock indie dos anos 2000. Essa sua roupagem, aliás, era uma forma de se distanciar do som caipira que ouviu desde a infância em Ribeirão Preto (SP), sua cidade natal. A reaproximação se deu aos poucos, com o surgimento de mulheres na linha de frente, e foi concretizada depois de conhecer o trabalho do amigo Gabeu.

Com dois singles lançados até agora, sendo o mais recente "Caminhoneira", Gali se identifica como mulher lésbica não-binária. O que para a sociedade pode ser um pretexto para destilar o preconceito — traduzido em xingamentos como mulher-macho ou sapatão —, para ela é uma forma de brincar com as palavras e cantar sobre o que é se sentir fora da cisnormatividade, ou seja, não se ver como homem ou mulher.

Para ela, o queernejo está um passo à frente do feminejo por trazer ao debate público a conscientização política do movimento LGBTQ+. A problematização passa também pela inclusão de mulheres instrumentistas, empresárias, roadies e muitas outras profissionais nesse meio.

"Esses homens [do sertanejo] parecem indestrutíveis, como se eles fossem o Rei do Gado. É a masculinidade tóxica que atinge não só as mulheres, mas os homens também. Eles falam da sofrência, mas se escondem atrás disso. No queernejo, cantamos a história de nossas vidas, é um ato de resistência, de ressignificação do estilo e de nós mesmos. Saímos do armário e estamos com o pé na roça" diz Gali, que é admiradora de Inezita Barroto, pioneira no sertanejo raiz.

O doutorando em antropologia social pela UFG (Universidade Federal de Goiás), Matheus França, analisa que a concepção do queernejo, por si só, é um forte contraponto aos muitos preconceitos existentes nesse segmento da música. Para ele, a ruptura pode servir como inspiração para que mais pessoas LGBTQ+ se aventurem nessa miríade de contestações feitas através da música.

"Existe uma prática de deslegitimar as tendências no campo da música sertaneja que não seguem a autenticidade e tradição desse gênero musical. No caso do queernejo, isso pode aparecer por não obedecer a critérios estéticos e narrativos do sertanejo, e também por desafiar os códigos de masculinidade, honra da masculinidade hegemônica e da própria ideia de heterossexualidade como base para o ethos da cultura sertaneja", observa.

Visibilidade trans e negra

Alice Marcone, 25, carrega muitas bandeiras de minorias consigo. Mulher trans e negra, a artista nascida em Valinhos e criada em Serra Negra, ambas no interior de São Paulo, não sente saudades da vida no campo por causa do conservadorismo e das violências que enfrentou. Foi na capital paulista que descobriu seu gênero, identidade e vocação para o queernejo, mas não sem antes se aventurar pelo pop.

Seu primeiro single, "Noite Quente", foi lançado em 2020, após tentativas de trabalhar com uma estética mais pop, de balada, até chegar ao resultado final. O clipe mostra as dificuldades de uma mulher trans de ser aceita em relacionamento por um homem, ali representado pela figura folclórica do Lobisomem.

Muito além da identificação com a comunidade LGBTQ+, a questão racial é essencial em seu trabalho, pois segundo ela, a música sertaneja apresenta traços colonialistas que apagaram a mestiçagem na concepção desse som. São poucas as referências negras que encontra, principalmente no pós-modernização desse ritmo musical, como Cascatinha e Inhana, Pena Branca e Xavantinho e João Paulo, da dupla com Daniel.

"Num primeiro momento, minha entrada no queernejo será para explorar o universo do sertanejo universitário e falar de amor, mas eu quero falar do sertanejo raiz, de sua racialidade e como isso foi apagado. O sertanejo não é branco na sua origem, mas acabou se tornando. Os cantores sertanejos que temos hoje, na grande mídia, são brancos. O sertanejo universitário se distanciou dos outros ritmos brasileiros, é tão engessado. Eu não consigo lidar com esse embranquecimento", opina a cantora, filha de mãe descendente de italianos e pai negro.

Movimento ilegítimo?

Desde o lançamento de "Amor Rural" de Gabeu, pipocaram críticas de na internet dizendo que o pocnejo, como era chamado na ocasião, não era um movimento genuíno. Vieram as recordações da dupla Rosa e Rosinha, homens héteros que se apresentavam como homossexuais do interior nos anos 1990. De forma satírica, vestiam rosa da cabeça aos pés e tinham uma fala afeminada para reforçar o estereótipo do homem gay. Em linhas gerais, Gabeu discorda dessa comparação por acreditar que o queernejo prega a representatividade LGBTQ+ nesse meio, enquanto Rosa e Rosinha destilavam um humor apelativo para colocar os homossexuais como motivo de piada.

Em conversa com o TAB, França assinala que a arte entrega inúmeras possibilidades para homens héteros de questionar convenções e naturalização da sexualidade por meio do humor. O problema recai, segundo ele, quando esse lugar é usado para a prática da ridicularização de determinada identidade sexual. "A dupla Rosa e Rosinha poderia fazer uma paródia interessante da homossexualidade sem desrespeitar, estereotipar e usar convenções baratas daquilo que historicamente constitui o outro como 'inferior', 'doente' e 'anormal' homossexual. Existe esse equívoco de pensar que foram eles que deram início a esse movimento. O queernejo tem o elemento político de questionar a naturalização do gênero musical, do porquê é tão masculino, branco e heterossexual", diz.

Com os olhos no futuro, o queernejo é um movimento que está em transformação. Enquanto o sertanejo romântico e o tradicional contam com megainvestimentos milionários, Gabeu, Gali Galó e Alice Marcone trabalham de maneira independente para colocar suas canções no radar do gênero musical mais ouvido no Brasil.